Aldobarreto's Blog

Da produtividade de artigos mudos

muda

O que torna um indivíduo um autor é um conjunto de condições capaz de aproximar seu discurso a uma comunidade de leitores e estabelecer elos  entre eles no tempo e no espaço. Por isso, Foucault diz que as condições de identificação da autoria se constituem de forma constante e universal em todos os discursos [2]. Ao que Barthes acrescenta:  “O  autor é reputado o pai e proprietário de sua obra e ao respeitar o escrito e as intenções do autor  a sociedade postula uma relação do autor com a sua obra” [3]. Um autor produz para ser lido  e a quantidade e qualidade de sua reflexão narrada varia em cada indivíduo e seu contexto.

Uma questão relevante sobre a relação produtividade e competência é que não é possível medir-se competência através de métricas de produtividade quando os indivíduos são academicamente diferenciados. Quando os recursos de vivência, tempo, energia, densidade de produção científica e citações recebidas são diferentes devem ser usadas métricas que meçam competência e não métricas que meçam a produtividade do indivíduo no curto prazo do ano. De outro modo seria como medir a competência da altura de um grupo de indivíduos e depois concluir que os que ficaram nas primeiras posições são os mais gordos.

O contexto de produzir textos pode criar uma oferta de conteúdos publicados sem haver uma demanda de leitura para estes textos. A cultura de medição da produtividade do docente e pesquisador baseada na publicação de artigos em periódicos deturpa sua condição de competência;  o de seu passado histórico, sua liderança em pesquisa e a qualidade de professar disciplinas para discentes.  A produtividade destes artigos mudos não possui intenção de leitura , são veiculados para faturar pontos necessários  para manter um  “status quo” acadêmico e se aglomeram no fluxo dos artigos reais, pois grande partes destes textos são de múltipla autoria, embora só um autor tenha escrito a narrativa.

Resta avaliar o que tem mais produtividade: um artigo com grande citação contabilizada pós-publicação ou dez artigos produzidos e que jamais serão citados, talvez sequer lidos, formando por seu volume incomodo um entrave à comunicação cientifica,  na ânsia de angariar alguns pontos, em um somatório de documentos avaliados pela quantidade e não pela produtividade  de inspirar  leitores.

O cientista David Hamilton [5] escreveu alguns artigos sobre a  “não  citação”  em  ciência,   chegando a números surpreendentes nas estatísticas dos periódicos indexados pelo Institute for Scientific Information, Social Sciences Citation Index, e Arts & Humanities Citation Index. Os números relatados por Hamilton  mostram que 98 % dos artigos em artes e humanidades  permanecem sem qualquer citação, após  cinco anos de sua publicação nos EUA valendo para o resto do mundo, com pequenas variações.

O  que apura a categoria de um artigo na cadeia de eventos da comunicação científica é o seu valor de uso. Tal valor só pode ser atribuído se existe demanda para sua leitura. A simples oferta de um texto no fluxo da comunicação científica não cria necessariamente uma demanda de leitura. De pouco vale um artigo escrito e  muito bem pontuado, pela burocracia da produtividade instituída, se este artigo não gerou nova reflexão. Se não inspirou em nada  seu campo e nunca foi indicado em bibliografias supervenientes de seus pares e outros autores.  Como valorizar esta narrativa muda?

A privilegiada condição de contar a produtividade por publicação em periódicos quentes distorce toda a questão do valor da reflexão da pesquisa criadora e sua convivência com a citação ampliadora no fluxo de informação e conhecimento. Estas contagens hesitantes têm, contudo, prestigiado os artigos silenciosos para o sistema de comunicação em ciência e tecnologia.

Aldo de A Barreto

Editor  da Revista Datagramazero

Referências:

1  Fórum de Coordenadores de Programas de Pós-graduação de História, GT-Autoria da ANPUH em

www.anpuh.org/arquivo/download?ID_ARQUIVO=3975  visto em 29/11/2012

2  Foucault, Michel. A ordem do discurso, São Paulo, Loyola, 2007

3  Barthes, R., A obra do texto  em o Rumor da Língua, Edições 70, Lisboa 1984, Portugal

4   Ricoeur, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Editora da Unicamp, 2007

5  David P. Hamilton. “Research papers: who’s uncited now?,” Science, New Series,  251 (4989) (January 4):  25, (1991).

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Os imateriais

A consciência traduz e define a apropriação do conhecimento quando – recorda, presta atenção e espera; esta intermediação acontece em um momento do presente. É um estado de vivência provisória e ocorre quando acontece a passagem da informação para conhecimento. Assim a cognição dos conteúdos se processa em um presente cada vez mais alongado pela velocidade dos acessos e a sensibilidade das conexões imediatas, em um processo que se inicia no tempo cronológico dos estoques de conteúdos.

O grande temor é não conseguir acompanhar a rapidez dos eventos neste processo de tranformação e ficar para trás, sobrecarregado de ativos imateriais, que podem ficar indesejáveis se não forem trocados devidamente. A riqueza que temos aderente vem destes ativos intangíveis quando trocados para conhecimento formando nosso capital intelectual. Mas todo o procedimento se inicia no labirinto da inconstância dos significados de informação armazenados.

Um bom exemplo de uma informação em sua estrutura é o texto, um conjunto de expressões de uma escrita fixou em uma base, com a multiplicidade de configurações das possibilidades de um idioma; o texto constitui um todo unificado passível de ser distribuído por um canal de transferência de conteúdos; agrega-se materialmente em estoques. O seu discurso inicial de significação é sempre a elaboração de um autor, mas quando distribuído o texto associa em sua amplitude a leitura de um receptor e então fica sujeito à nova interpretação ou reconstrução do que nele está narrado.

Assim conteúdos de informação estocados ou não se transformam na mente do leitor em conhecimento imaterial.É uma constatação de que a finalidade não está na origem, mas no seu destino.

Tem sido, também minha preocupação este tópico e listo três conteúdos sobre o assunto para quem interessar:

1) Les Immatériaux (imateriais simbolicamente significantes) escrito em 2010
http://www.dgz.org.br/abr10/Art_02.htm

2) A gestão do conhecimento, o capital intelectual e os ativos intangíveis no eterno presente das conexões imediatas escrito em final de 2012
http://www.dgz.org.br/out12/Art_08.htm

3) E,  o PPT de uma palestra sobre o artigo 2.  A palestra é de novembro de 2012 em um Colóquio na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro
http://www.slideshare.net/aldobar/a-gesto-do-conhecimentocapital-intelectual-e-ativos-intangiveisna-velocidade-das-conexes-imediatas

a imagem é do filme Dragonball Evolution

É preciso lutar quando é fácil ceder, pois o sonho não é impossível.

O conhecimento move o mundo, mas muitas vezes o acesso a ele está impedido por barreiras  que restringem o acesso à íntegra de estudos publicados em alguns dos principais periódicos científicos do mundo. Nos últimos anos, no entanto, cresce a adesão das maiores instituições de ensino e pesquisa do planeta ao livre acesso, com a criação de repositórios digitais onde se coloca disponível o conteúdo completo de livros e artigos.

A Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz tornou-se mais uma instituição a se juntar a esse movimento; pesquisadores, docentes, discentes, colaboradores e demais pessoas vinculadas à escola devem disponibilizar para todos no repositório digital da instituição e em forma completa os textos e estudos que produzidos, além de cederem os direitos para sua divulgação, tradução e uso não comercial. Hoje existem cerca de mais de dois mil repositórios digitais livres visando a universalização do saber, pois o conhecimento não pode servir apenas a universos particulares do saber.  Universos particulares  são  como um “country clubs” que acastelam a informação acervada para os mais previlegiados. É preciso lutar, quando é mais fácil ceder à esta ocultação da informação,  pois o sonho do saber para todos  não é impossível.

Outra barreira à universalização do saber é o anti-intelectualismo dos que defendem que cientistas pesquisadores e docentes não devem registar por escrito as suas pesquisas para não ficarem “tensionados”  pelo sistema e seu mote do escrever ou perecer. Esquecem que pesquisas não relatadas não podem ser divulgadas e ficam ocultas para o livre fluxo da informação. Esta opção democrática do não relatar permite  pensar que o meu conhecimento ficando só para mim pode ser tão bom quanto a  ignorância de todos os outros parafraseando o dito de Isaac Asimov*

Outra grande barreira, ao fluxo da informação,  é a formada pelos radicais quixotescos do formato papel em instituições que abrigam este acervamento.  A existência de palácios de informação é e deve ser um permanente marco na história da vida cultural de uma nação. Mas o radicalismo em qualquer de suas formas é prejudicial a qualquer causa;   quando relacionado à informação entrava à  universalização do saber, pois esta radicalização dificulta a disponibilidade e o uso dos conteúdos;  e esta ocultação induz  uma elitização do conhecimento que serve melhor ao interesse daqueles que tem a acesso  (em todos os aspectos)  a estas estruturas urbanas do saber acumulado.   Impõe, então,  estes radicais do formato acervado uma exclusão informacional ao dificultarem a disponibilidade da informação que fica só acessivel em palácios urbanos de cultura.

Aldo de A Barreto em 13 de setembro de 2012

*Isaac  Asimov, As máscaras da tolerância e da autoevidência

http://www.anda.jor.br/03/02/2012/as-mascaras-da-tolerancia-e-da-auto-evidencia

imagem de Honoré Daumier

Não mate o mensageiro

Conta história que Dario III, rei da Pérsia, cometeu erros de estratégia de guerra quando derrotado por Alexandre, o Grande. Informado do possível infortúnio de suas estratégias por Charidemos, Dario III  mandou matá-lo. Também, Gengis  Khan, valorizava, mas temia os mensageiros, pois quando a mensagem trazida era  ruim, ou não poderia ser espalhada, Gengis  Khan não titubeava em matar o mensageiro na hora. Assim, surgiu o provérbio latino “Ne nuntium necare”: Não mate o mensageiro.

Talvez por isso nas armadilhas do publicitar as  reflexões sobre o não escrever  torna-se uma opção,  para que o pensamento não fique preso à perenidade da palavra testemunhal. Muitos nunca escreveram para preservar esta liberdade e fluidez temporal do pensamento.  Pitágoras foi um grande filósofo grego, responsável por desenvolvimentos na matemática, astronomia e na teoria da música Pitágoras nunca deixou nada escrito – acredita-se que para preservar o seu pensamento. Sócrates e Buda nada deixaram escritos,  mas muito se fala do que pensaram e disseram. Cristo pelo que sabemos escreveu uma única vez e poucas palavras que a areia se encarregou de apagar. Deixaram, contudo discípulos que se ocuparam de divulgar seus ditos e  feitos.

Isto, contudo, pode levar a desajustes tolos e sem sentido no relacionamento na convivência com as narrativas. Ou decisões extremas como tomou “Bartleby, o escrivão” de Melville, que em um determinado momento da vida deixou de escrever e por uma decisão de sua própria escolha “I have chosen not to write again” disse ele e nunca mais escreveu uma linha até morrer. A escrita nas mãos de um inábil é como a espada nas mãos de uma criança, diria Santo Anselmo. Melhor seria então não escrever e só citar ou só linkar?

Assim pode terminar um excessivo comunicador virtual: um estranho refugiado em seu próprio casulo pensando que de lá está discursando com convencimento,  quando esta postando para a cidade e para o mundo. Existe, também, hoje aquele que tem uma inapetência para escrever e se voltam contra a função do autor e de sua fruição para relatar fatos e ideias. Este é um problema comum na academia, onde para alguns o dever de narrar suas experiências e vivências com a ciência e a arte é uma parte da função exercida e não uma opção como a do escrivão de Melville. Para fugir desta obrigação investem e querem acabar com os mensageiros: o autor, o modo da escrita e seus meios de divulgação.

É preciso coragem para tornar um discurso público  expondo a narrativa, ao observador crítico e a todo o público, mas em defesa de uma posição, de uma causa, de uma ideia com o objetivo maior de  causar a potencialidade do conhecimento.

referências:

– imagem: Johnson County Library, Kansas, USA

– Bartleby, o escrivão de  Herman Melville.

– Histórias do Sr. Keuner de Bertolt Brecht.

O discurso eletrônico

Três são os grandes discursos de poder que pela sua  influência e força social podem confundir o preceito de que discurso nada tem a ver com a ação: 1) no discurso político; 2) o discurso dos meios de comunicação; e o 3) o discurso da ciência e da tecnologia.  O discurso da mídia procura convencer pela abrangência e penetração; o político pela sua abundancia e formalização e o da ciência e tecnologia pela sua forte promessa de verdade. Em geral o discurso, peça oratória ou escrito  é  um palavreado romanesco  e espetaculoso, um enunciado querendo substituir uma atuação não acontecida.

O discurso político se referencia ao poder pela intenção de reconstrução ou modificação dos fatos sociais e econômicos em uma determinada ambiência. Quando transformado em ação o discurso político intervém em nossa relação com a realidade física que habitamos.  O discurso dos meios de comunicação lida com a formação ou deformação da opinião pública para homogeneizar um maior público comum impingindo uma visão dos fatos e ideias que atendem a seus interesses. O discurso dos meios obedece a fatores e interferências externas voltadas para seus fins e mostrando ao público o cotidiano como espetáculo em um palavreado oco que quer moldar opiniões  e não apregar para uma transformação social.

Como os outros, o discurso da ciência e tecnologia e inovação é só uma peça de informação. É um discurso de poder por conta da esperança que coloca para um melhor destino do homem. É, portanto, um discurso utópico quando contextualiza para possível realização de uma ação e se esquece de tratar das ações complementares para sua realização.

Mas, em um mundo cada vez mais totalizado,  o vigor da  conexão online  reposiciona poderes. Estima-se que bilhões de pessoas e instituições estejam interligados via web. Estamos vivendo conectados em um ciberespaço que nada tem a ver com as condições da realidade fundeada que habitamos presencialmente com sua perspectiva de percepção

O ciberespaço tem novo contorno  permitindo representar de modo estético  a diversidade de emoções e sentimentos que ele suscita no homem. É uma perspectiva livre de qualquer referência anterior carregada de profunda vivência pessoal podendo suscitar em outros um desejo de prolongamento ou renovação continua.

O linguagear [1] dos conectados nesta realidade não é padronizado, pois  é uma coordenação de condutas e opera em comunidades de convivencia. Estas trocas de enunciados induzem para uma possível finalização, com afetividade organizacional, mais que atendem a um poder central. Assim os poderes se reposicionam na nova conduta dos receptores ao receber os discursos tradicionais.

Esta enunciação em conexão é um dialogo social livre e em réplica, um discurso interior que se exterioriza no espaço cibernético, mas que não existe fora de um contexto de troca entre seres humanos. A nova perspectiva mudará todos os discursos e suas formas de poder.  O estranhamento e a individualidade  dos discursos em convivência mostra a diferença e não o consenso. A sensação da percepção dos significados não é universal em sua condição e marca  a destruição do discurso tradicional pela situação instável de um linguageamento que coincide com um o estado emotivo do pensamento e que, ainda,  procura as palavras certas para finalizar o que quer dizer. [2]

Aldo de A Barreto

[1] “Como seres humanos, vivemos imersos em um fluir incessante de ações que Humberto Maturana chama de “linguagear”. A linguagem é usualmente entendida como a transmissão de informação simbólica. Mas, em seu trabalho,  Maturana deixa o conceito de informação completamente de fora; diz que os símbolos são secundários ao ato de linguagear que é uma coordenação de condutas. Então, o linguagear é um modo de viver caracteristicamente humano, no qual somos imersos.” Em  Vaz, M.N.  – O Linguagear é o modo de vida nos trabalhos humanos, Revista Ciência e Cultura da SBPC,  número 60,  especial 1, julho de 2008.

[2] Lyotard, Jean-François. The Differend: Phrases in Dispute. Minneapolis: University of Minnesota , USA 1988.

O que você vê ?

 

Vivemos a era do visual em uma humanidade  digital que pode ser  entendida como um novo campo de conhecimento abrangendo todas as atividades acadêmicas na área de humanas que se envolvem em escrever sobre mídia digital e suas tecnologias. Tais atividades podem incluir o desenvolvimento de teoria de novas mídias, criação de arquivos eletrônicos interativos e literatura sobre o assunto. A construção de bases de dados on-line, produção de artes virtuais e estudar como estas varias técnicas  modificam  tecnologias de ensino e reformulam a pesquisa. Tudo levando a uma nova interação visualmente mais estética e com menos esforço cognitivo do receptor.

Um grande jornal do Rio de Janeiro nestes últimos dias de julho 2012 irá modificar o seu formato gráfico. Será dizem  mais visualmente estético, com harmonizando imagem e texto, pois este mundo cada vez mais,   complexo, dinâmico e multidimensional não convive bem com  o papel  estático e plano. Há  que representar a nova realidade da escrita como um mundo de rico visual que mascare a terreno plano e preso ao formato.

Fica cada vez mais estabelecida a existência de uma relação entre informação visual e conhecimento, que só se realiza se esta for percebida e aceita como tal, colocando o indivíduo sensível em um estágio de melhor percepção das narrativas que o cercam. Uma condição estética  no fenômeno do conhecimento operando sensibilidades para  perceber os registros da informação. Tudo em uma perspectiva  visual  que adiciona a emoção ao sentimento da momentaneidade do Eu que avalia o mundo.

Para quem conviveu com o texto escrito e testemunhal por toda uma vida esta modificação na estrutura da codificação da mensagem representa um grande esforço de adaptação ou uma negação da ideia, uma alucinação. Esta relação documental estabelece o poder de um novo discurso descrevendo o quotidiano,  como uma vilania para nossa antiga convivência com as narrativas que se contavam com em um folhetim.

A visualização liga a percepção da informação aos dois mais poderosos sistemas de processamento: a mente humana e do computador. Um processo, que transforma os dados e informação em uma configuração visual  que explora o ponto forte da rápida conexão visual. A importância da visualização da informação vai muito além do interesse acadêmico, pois e um recurso potencial para resolver problemas do mundo real.

O modo da informação atual não quer discutir se a maquina é superior ao cérebro, mas estudar se a interface visual da escrita digital pode alterar as condições de qualidade da subjetividade.

AAB

Observação:

Visualização da informação nada tem a ver com arquitetura da informação

 

Visualização da informação como uma nova mídia

http://www.slideshare.net/ebreilly/visualization-as-a-new-media-literacy

 

Scripturientes, os que possuem um violento desejo de escrever em coautoria

O editor exerce a função de curador de produto com características imateriais, acompanha um texto desde o levantamento das informações sobre conformação de  autoria, originalidade, relevância até sua edição e publicação. Coordena e supervisiona cada etapa da confecção de forma a atingir o resultado planejado.

Tem um fluxo que se orienta como abaixo:

A atuação do editor vai além da edição de um conteúdo: quando procura uma diagramação diferente, uma boa impressão e visualização; o editor quer, principalmente, tornar a narração mais valorizada através das fases de edição dando-lhe as características necessárias para se adaptar ao meio  e agradar  ao leitor. É, também, função do editor tratar da autoria na pertinência da  composição e suas características legais e éticas.

O que torna um indivíduo um autor é um conjunto de condições capaz de aproximar discursos e indivíduos e estabelecer elos pertinentes entre eles que variam no tempo e no espaço. Por isso, Foucault diz que as condições de identificação da autoria — literária, científica ou filosófica — podem variar bastante;  um autor constitui  “uma espécie de foco de expressão” que se manifestando da mesma maneira e com o mesmo valor em sua “obra”, como algo heterogêneo, é ainda construído por sua figura. A função de autor não se constitui de forma constante e universal em todos os discursos. [1] e [2] Mas sempre:  “O  autor é reputado o pai e proprietário de sua obra; a ciência literária apreende,  pois a respeitar o manuscrito e as intenções declaradas do autor e a sociedade postula uma  relação do autor com a sua obra” [3]

A questão do autor e o privilégio da autoria é vivenciada por todos os editores que observam  e devem relatar suas condições  apontando  circunstâncias supervenientes. Assim é no caso da  coautoria de trabalhos intelectuais  derivados de documentos  acadêmicos formais como teses, dissertações, trabalhos de fim de curso,  quando há uma partilha na autoria entre o proprietário que escreveu a obra e o conselheiro que a conduziu. Mas,  “o autor não é aquele que se imiscui como o  ordenador, disciplinador… no momento derradeiro da escrita, e sim aquele que a escreve”,  diz Ricoeur, de  “ponta a ponta”. [4]

O que faz de um indivíduo um autor é o fato de, através de seu nome, ser possível demarcar os textos que lhes são atribuídos como sua propriedade pela escrita. A autoria do discurso escrito quando aliado ao documento acadêmico revela e delimita o pertencimento do texto ao autor e ao campo do conhecimento. Se o autor já possui a propriedade do conteúdo que lhe foi conferida  “res publica” pela academia o  discurso fala só o nome de um autor. ” O que é absolutamente fundamental é não confundir coautoria com o  trabalho de assessoramento, sendo inaceitável que teses, dissertações, monografias ou seus desdobramentos intelectuais possam ser classificados como possibilidades de coautoria.” [1]

“O ato de revisar um texto de um orientando (relatório de pesquisa, artigo, monografia, comunicação em eventos), sugerir alterações, discutir a elaboração da trama historiográfica propriamente dita faz do professor coautor? Este procedimento, como discutido anteriormente, não encontra fundamento teórico nas operações de produção do conhecimento no campo historiográfico. Seu fundamento e legitimação, portanto, dar-se-iam sob pressão muito mais ética – de uma ética “estranha” que há uma década busca se impor – do que acadêmica.” [Fórum de Coordenadores de Programas de Pós-graduação de História][1]

É sempre  bom lembrar dos artigos 11 e 15 da Lei no. 9.610/98,  [6] , sobre Direto autoral e coautoria: Art. 11. *Autor é a pessoa física criadora de obra literária, artística ou científica.

Art. 15. A coautoria da obra é atribuída àqueles em cujo nome, pseudônimo ou sinal convencional for utilizado. Paragrafo 1º Não se considera coautor quem simplesmente auxiliou o autor na produção da obra literária, artística ou científica, revendo-a, atualizando-a, bem como fiscalizando ou dirigindo sua edição ou apresentação por qualquer meio.

Também é necessário diferenciar claramente outros tipos de trabalho coletivo que envolve professores e alunos no curso de uma pesquisa ou de uma rede de trabalho em convivência, tão própria à profissão docente no magistério superior e de pósgraduação. Mas nesse caso a autoria é da rede que criou o documento como aconteceu no Painel do Tempo com o documento da ONU e os documentos de pesquisa conjunta que levaram a descoberta do DNA.

Alguns elementos que operam na academia e acontece em todos os campos do conhecimento, deixaram , já há alguns anos,  sua reflexão própria e original  apossados pelo violento desejo de compor em uma coautoria inadequada.

Aldo de A Barreto

Referências:

1  Fórum de Coordenadores de Programas de Pós-graduação de História, GT-Autoria da ANPUH:

www.anpuh.org/arquivo/download?ID_ARQUIVO=3975 

2  Foucault, Michel. A ordem do discurso, São Paulo, Loyola, 2007

3  Barthes, R., “A obra do texto”  em o Rumor da Língua, Edições 70, Lisboa 1984, Portugal

4   Ricoeur, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Editora da Unicamp, 2007

5 Ver relato de casos em:  http://www.biblioteca.ufrgs.br/autoria.pdf

6  Lei no. 9.610/98 sobre Direto autoral:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9610.htm 

7  A Imagem inicial é do “The Project Twins” de James e Michael Fitzgerald,  Ireland

8  O Fluxo de edição é adaptado do site da  Frontis editoria:     http://www.frontis.com.br/editor.htm

Notas sobre como operar uma edição de texto para a web

Atualmente há uma crise da escrita e leitura tradicional. Uma linguagem nova urdida nas  características dos meios digitais está querendo fechar um capítulo na história das narrativas impressas em formato papel. Desde 1990 as tecnologias de informação digital estão definitivamente inseridas no contexto do pensamento e dos atos para gerar e receber a informação. Fatos e ideias tinham um percurso formal e bem definido dentro de um mundo onde a textualidade era pautada pela escrita em papel, quando a narrativa ia se contando como um folhetim destinado a um formato dominante.

A escrita digital quer valores visuais, uma consciência multivariada e  com forte apelo estético ao contrário da vivência nos espaços impressos, onde no convívio com enunciados há uma reflexão do leitor consigo mesmo mediado pelo espaço e a permissão de ir de signo a signo com demorada pausa em adereços figurativos.

Mas, as pessoas, ainda escrevem com todo o maneirismo da escrita para impressão em papel, quando destinam suas narrativas para a escritura mediada  do computador. Existe um novo olhar e um novo formato de conteúdo que antes de tudo deve ser leve e agradável e é diferenciado para um imaginário que se liberta pelo link.

Portanto,  hoje conviemos com duas formas de escrita. A escrita de formato impresso em papel e tinta e a escrita para visualização na web. Sendo a web uma condição recente de compor enunciados é compreensível que autores escrevam seus textos como  se os propusessem para a impressão convencional. Porém as adaptações exigidas pelo olhar, em uma página da web, provocam uma espécie de reposicionamento da escrita e da leitura.  A escrita digital deve ter como referência a visualização  e a simplificação subvertendo a estrutura da linguagem feita para impressão em papel. A  percepção na web requer uma economia de adereços figurativos em prol do entendimento global.

Nesse sentido um excesso de quadros, tabelas e figuras que na impressão papel e tinta esclarecem o texto devido a sua condição de estática apreciação, na particularidade da web dificultam a leitura pela condição dinâmica que  requer uma visualização do conjunto sem estresse cognitivo. O texto na rede passa seguido e tais adereços devem ser, quando essenciais, linkados para um anexo.  O excesso de adereços compromete o texto que fica mal colocado e o autor comprometido na significação de sua narrativa. Abaixo deixamos algumas sugestões de elementos que devem ser evitados em uma escrita para a web:

– O tamanho do título e subtítulos do artigo  não deve exceder 90 caracteres;

– Não deve ser usada numeração decimal para separar as seções do texto;

– Não usar notas ou bibliografia de pé de página e as referências no contexto do texto não devem estar  em caixa alta;

–  Artificios como:  – (travessão) , / divisor, (…) braquetas, negritos, itálicos, grifo nosso, sublinhados e siglas representando o extenso comprometem e enfeiam o texto;

– Links quebrados na bibliografia são uma frustração para o leitor;

– Não se deve usar caixa alta em todo o contexto do corpo do texto; mesmo no título, seções, etc.;

– Evitar o uso de explicação em blocos de texto itemizado;

– Citações devem ser precedidas de dois pontos e o  texto citado deve estar entre aspas;

– As citações bibliográficas no texto são hiperlinkadas para  detalhamento na bibliografia;  assim, não se deve usar:   “et alli” ou  (…) ou  “idem”  ou “tradução nossa” ou outro artificio explicativo no texto.  Detalhes  devem ser explicados na  bibliografia lá no final.

– Escreva em blocos de ideias sucintas e logicamente interconectados respeitando as condições de ponto e paragrafo.

Estas são poucas observações de uma experiência de 13 anos como editor na web.

Aldo de A Barreto

Sobre a originalidade do texto e a função do autor

Publicação original

Um artigo original é o que não foi conhecido e não existiu antes publicado em um mesmo formato e um canal de mídia de divulgação destinada a atender a um determinado público de leitores;  é inédito, é novo  aquele texto colocado pela primeira vez em um formato, um  canal de comunicação e destinado a um grupo de leitores específicos ou em geral. Nesse sentido entendemos que uma dissertação ou tese de mestrado em formato papel ou digital, publicada na web ou colocada em um repositório não retira a originalidade de artigo relacionado para publicação. Não tem o mesmo formato não passou pelos canais de divulgação convencionais.

Entendemos, entretanto, que um mesmo texto completo publicado e divulgado em papel e/ou em formato  digital para um congresso, simpósio, reunião, etc. disponibilizado e divulgado para acesso geral não é mais original para efeito de publicação,  mesmo que receba, em seu conteúdo, algumas  modificações supervenientes da sua construção inicial, sem ser contudo uma nova construção.

O que é um autor

Para Foucault o que determina uma “função-autor” não se constrói simplesmente atribuindo um texto como sendo de um indivíduo, com poder criador, mas constitui uma “característica do modo de existência, de circulação e de funcionamento de alguns discursos no interior de uma sociedade”.  Ou seja, indica que tal ou qual discurso deve ser recebido de certa maneira e que deve, em determinada cultura, receber certo estatuto de pertencimento.

O que faz de um indivíduo um autor é o fato de, através de seu nome, ser possível delimitar, reconhecer e caracterizar os textos que lhes são atribuídos. No campo da áreas exatas  o discurso do conhecimento pode ser atribuído a uma vivência de bancada de muitas colaborações, mas nas ciencias humanas e sociais o discurso revela e delimita o pertencimento do texto ao autor e ao campo do conhecimento. Se este autor já possui uma família de textos atribuídos o seu discurso fala só o seu nome.

Na academia, diversas vezes, a voz de um novo autor é deturpada ou calada pela necessidade burocrática de se associar a uma autoria  uma  experiência tutorial.   Ai calam-se duas vozes, pois não se pode mais delimitar e caracterizar o texto com uma “função de qualquer autor”, embora,  o texto possa ser ainda publicado.

Mas isto é só minha opinião e da revista que edito.

Aldo de Albuquerque Barreto

(Foucault, M. . “O que é um autor?”,  3. ed. Lisboa: Vega, 1992.)

A configuração mágica das palavras – Storytelling

 

Those who tell the stories rule society.   (Platão)

 

Um  “golem” é um ser artificial mítico associado à tradição simbólica do judaísmo, particularmente à cabala. Este ser pode ser trazido à vida através de um processo mágico de palavras.  O nome é uma derivação da palavra gelem que significa “matéria prima”.  O golem foi uma possível inspiração para outros seres criados artificialmente,  tal como os humanos artificialmente criados e dotados de poder sobrenatural  com que os quadrinhos povoam nossa cabeça. Eles são reforçados pela ideação e a capacidade de defender os mais fracos e injustiçados. Um conhecido golem é o moderno Frankenstein da obra de Mary Shelley.

Em vários contos, o golem se associa a escrita e a palavras mágicas que, quando contadas,  o tornam animado por escrever um dos nomes de Deus na sua testa, num papel colado ou numa placa de argila embaixo de sua língua. Coube ao rabino Judah Bezalel orientando-se pelas instruções existentes no Livro da Criação de Eleazar repetir de modo incansável, as palavras, com todas as combinações possíveis ali encontradas a fim de gerar a sua vida. O ser místico assim criado se associa a ideia de proteção e de defesa do indivíduo, do lugar e das ideias.

Foco, para reforçar o poder de contar de histórias,  um  lendário episódio em Praga, no ano de 1816, na velha Europa, numa certa noite de verão na Vila Diodati, à beira do lago Genebra, na Suíça, os poetas Lord Byron e Percy Shelley discutiam sobre a natureza da origem da vida e de que forma coisas inanimadas poderiam voltar à ter vida.

Na mesma sala, escutando-os atentamente, estava Mary Shelley, mulher de Percy. Mary Shelley pensando naquela conversa não dormiu aquela noite de junho de 1816 maquinando a sua própria história. Nela tornada um clássico do gênero, surgiu a figura do doutor Victor Frankenstein. O golem de Mary Shelley, a criação de uma escrita, que estruturada em palavras serviu para defendê-la do preconceito e da exclusão de sua época. Ela clama na voz de seu avatar um tratamento igualitário: “Terei de respeitar o homem quando ele me despreza.”. “Por toda parte vejo felicidade da qual estou irremediavelmente excluído”,  fala Victor Frankenstein.

Dar forma a coisa escrita, criada a partir de palavras narradas nos remete ao próprio conceito de informação e por consequência ao conhecimento da coisa. Ao criar mensagens escritas através das palavras cada um está contando parte de sua historia. Moldando o seu próprio Golem, para defender sua aspiração que no final sempre é: “tenho direito de ser igual quando a diferença me inferioriza. Tenho direito de ser diferente quando a igualdade me descaracteriza.” *   Escrever, então,  é como criar este refúgio protegido de memória domiciliada ao qual você pode sempre voltar em refúgio.

Contar histórias,  no formato digital,  ficou permitido ou estendido a qualquer pessoa. Para todos os trajetos de solidão ou convivência do indivíduo há um espaço fabuloso criado por uma configuração de palavras apropriadas onde o avatar encontra a sua pessoa.

Aldo de A. Barreto.

* (Boaventura de Souza Santos)

O Datagramazero: uma celebração de seus quinze anos

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O Datagramazero : um manifesto de identidade

por Aldo de Albuqerque Barreto

Aos nossos leitores e autores,

O Datagramazero marcará com o número de fevereiro de 2014 quinze anos  na cadeia de comunicação científica tratando dos fatos e eventos relacionados a informação em ciência e tecnologia nos campos que operam com o fenômeno da informação.  Iniciar o DGZ no final de 1999 foi mias uma atitude mais de satisfação do que falta dela.

Em final dos anos noventa o texto modificava seu status e poucos percebiam isso e ainda percebem no nosso país. O riscado da escrita no conjunto de elementos que a delineiam mudou. O traço ou o “grammé” da escritura mudava do formato papel e tinta para o formato digital. Assim, um novo grammé ou gramma marcava a nova forma de escrita daí DataGramaZero, o marco zero de uma nova escrita, não como uma substância presente aqui e agora, mas como uma diferença, isto é, uma querência espacial e uma diferença temporal. Essa estrutura ou melhor, esse princípio estruturador passou e passará a ser comum a todos os sistemas envolvendo o registro e a transferência da informação. A escritura quando digital e hipertextual é de alguma forma, externa à linguagem, pois agrega outros médias e sentidos ao entendimento e não se prende a uma visão de do texto linear e estático de um formato único.

Desde seu inicio o Datagramazero foi uma iniciativa particular e livre, que sequer, aceita fomento de qualquer fonte ou espécie para afirmar esta liberdade. Esta iniciativa privada têm seus custos suportados por seus editores, o maior deles o custo de sua operacionalização e manutenção da infraestrutura e feitura da do periódico.

Esta liberdade, contudo, traz condições imponderáveis marcando a condição existencial da Revista. Assim neste momento de celebração queremos ponderar a atualidade da vivência do DGZ refletindo sobre seu passado que perdura online e pensando com Paul Valéry sobre seu futuro: “Como seriam o passado e o futuro uma vez que o passado não existe mais e o futuro não existe ainda? o que não existe mais está no coração do que existe. O futuro – o que não existe ainda – se faz no ver. E ver é prever” (1)

Dependendo da base da escrita, o sistema de representação, pode ser um enunciado que vai de palavra a palavra como no papel e tinta ou mostra uma abertura digital. Acreditamos que com a escritura digital a palavra não é mais a menor unidade de significado. Esta menor unidade seria um bloco de imagem, texto, som, movimento: uma ciberlexia e que estaria relacionada à capacidade de visualização espacial do leitor no âmbito de sua competência cognitiva para interiorizar a informação ali contida.

O nome lexias foi cunhado por Rolanda Barthes para indicar os locais em que um conteúdo entra em terremoto de significação. A lexia seria o envelope de um conjunto semântico, a voz da escritura, a linha saliente de um conjunto plural.  O traço ou o grammé vem de Jaques Derrida e não é uma substância presente aqui e agora que se possa ver, sentir ou ouvir a diferença: o traço da escrita é a diferença em si, isto é, a diferença do existir divergente.

O DataGramaZero acredita ter participado desta nova significação. A revista nasceu e ainda traz uma condição experimental para o estudo das novas formas de escrita e leitura. A revista foi uma ousadia no mundo editorial que, em 1999, ainda considerava como única opção publicável um texto em  papel e tinta .

Assim, em quinze anos de publicação do Datagramazero  podemos contar  mais de quatrocentos artigos e algo como mil e tantos autores e coautores e um leitorado médio de 4 mil leitores por número de acordo com medições da web. Sendo ainda uma revista que quer permanecer experimental, frequentemente, reconsidera a natureza do seu conteúdo temático. Nascida na área de ciência da informação sua temática hoje está ampliada para todos os espaços multidisciplinares, que lidam com a informação em todas as suas formas. Mais de quinze áreas do conhecimento a reconhecem no instrumento da agencia reguladora de periódico da pós-graduação.

Criado livre o DataGramaZero apoia o livre fluxo da informação para uma comunidade editorial mais justa em que as decisões sejam menos politicas e burocratizadas e reflitam  o pensamento e a necessidade dos leitores. A comunicação em uma área de conhecimento deveria ser encaminhada  pelos seu publicadores, autores e leitores que a confirmam e não pela burocracia dominante do momento.

A intenção existencial do Datagrama se associa a condição de levar adiante ideias e uma escrita em mutação para leitores e campos em mutação,  sem cobrar nada por isso; e assim irá a revista até que esta condição vivencial mude por um movimento quase normal de uma harmonização com seu destino. Uma conciliação que acontecerá dentro da liberdade e da esperança com qual a Revista foi concebida. Dando conta só aos seus autores e leitores. E isso é o que nos basta.

Aldo de Albuquerque  Barreto, em 07 de janeiro de 2014

imagem de Michael Bilotta

1 O futuro não é mais o que era
http://ofuturonaoemaisoqueera.com.br/?page_id=54

A nova perspectiva estrutural da exclusão digital no Brasil

A organização internacional “Internet World Statistics” divulgou em janeiro de 2012 os números da internet no mundo e no Brasil. Na America do Sul e Caribe o número de usuários correspondem a 10 %,  do total de 2,7 bilhões de usuários da internet; cerca  40 % destes usuários da  America do sul e Caribe são brasileiros. [3]

Assim, no Brasil, em 2011, existem temos: cerca de 80 milhões de usuários ativos (conectados) da Internet e 203 milhões de celulares ativos contados em 2010.

Todo país, seja subdesenvolvido ou desenvolvido, possui uma população economicamente ativa, essa parcela do contingente populacional representa todas as pessoas que trabalham ou que estão procurando emprego, são essas que produzem para o país e que integram o sistema produtivo atuante. A população de idade ativa, PEA,  está entre 16 e 65 anos de acordo com norma da Organização  Internacional do Trabalho (OIT).  Assim, o número de pessoas  com maior probabilidade para utilizar produtivamente a internet no Brasil segundo estatísticas disponíveis para a força de trabalho representa algo entre 80 e 90 milhões de brasileiros em 2011. [1,2]

Mas, se  o Brasil tem 80 milhões de usuários da internet e digamos uma força de trabalho de 85 milhões na demanda por estes serviços  a exclusão digital  não é mais o enorme “abismo” ou “fosso” tão comentado em indisciplinares textos de C&T e da mídia. Há um modismo temático na contínua abordagem deste problema mas pouca pesquisa sobre o assunto. Fato é que o tamanho desta exclusão  deve ser  melhor examinado e refletido.

Por outro lado,  Ásia é a região do mundo com o maior número de usuários de Internet no mundo, respondendo por 42% do total de usuários, segundo o estudo “The State of the Internet”  2012. O uso da web dos Estados Unidos e da Europa somados fica bem abaixo dos usuários de Internet da Ásia.  Há uma hegemonia de domínio dos países orientais para as  informações e aplicativos da internet, principalmente: a China, Índia, Japão, Indonésia, Coreia do Sul, Filipinas e Tailândia.

Esta é uma posição que merece maior reflexão considerando os dez principais usos da internet seriam:  obter informação, comunicação online, vigilância tecnológica,   facilitador no processo de inovação, aumento da produtividade dos negócios, trabalho e pesquisa em  conjunto, marketing e compra e venda de produtos e serviços, transações comerciais em geral, educação online e entretenimento.

Estará o mundo mudando seu foco de influência e capacidade para outro espaço e não conseguimos perceber esta transformação por não haver um de distanciamento apropriado da realidade atual em que vivemos? Há uma nova historia do mundo se formando?

Aldo de A Barreto

Notas – A População Economicamente Ativa é um dado difícil de se averiguar, pois envolve  trabalho com diversas tabelas; o dado que apresentamos é uma aproximação feita  considerando as informações de  [1]  http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u26211.shtml

e  [2]   http://www.mundoeducacao.com.br/geografia/populacao-economicamente-ativa-brasil.htm

[3]

Formatos fixos: um adeus anunciado e esperado

Um formato de informação era composto pelas inscrições gráficas representação de uma linguagem colocados  em uma determinada base fixa de suporte; uma agregação que compondo um todo simbolicamente significante e a sua inter-relação com este todo. Um texto linear percorre o significado seguindo um destino de linha reta; sem desvios,  direto a um final estruturalmente requerido pelo formato. jà uma escritura digital  é denunciada pelo  traço de uma escrita com a intenção em se aproximar de uma nova grafia, ainda em se fazendo. A escritura digital é de alguma forma, externa ao código comum, pois agrega outros sentidos ao entendimento e não se prende  a visão linear,de folhetim.

A atualidade mostra, sem muitos terem percebido, uma mudança estrutural no formato da informação  que esta deixando o papel, a celulose, o vinil e a tinta. Convivemos agora, intensamente, com modelos  abertos sem territórios fixos e operamos  em um o estado emotivo do pensamento com aquela sensação de não conseguir ainda achar as palavras certas para finalizar o que queremos dizer.

Cada vez mais lemos  através da tela do computador pessoal ou dos variados gadgets eletrônico de leitura. São pixels de fósforo, que ligam e desligam como lampiros  que se dissipam imitando os mecanismos do próprio pensar. O interesse na leitura digital e suas condições vagueantes, é a sedução da viagem por espaços sem formatos ou territórios demarcados. Virtualizam-se as bases fixas de inscrição das narrativas.  O que não significa que o conteúdo destes formatos acabou: o livro, a fotografia, a musica, o cinemas já estão digital.  O antigo formato esta em acabamento progressivo e esta opção é técnica é econômica e é mais justa socialmente.

Os jornais de hoje,  20 Janeiro de 2012, dão conta do fechamento da Kodac de sua máquina e seus suportes  fílmicos, inclusive o kodachrome, ícones da fotografia em celulose  há 130 anos.  A Polaroid já tinha ido antes, a empresa fechou suas fábricas de máquinas e filmes para seu apetrecho de fotos impressas instantâneas.  Mas, nunca se fotografou tanto como agora: fotografias em alta definição digital.

Os cinemas já deram  adeus ao velho 35 mm. Sistemas de projeção digital facilitam a vida de distribuidores e exibidores. A qualidade  digital da projeção melhora as condições de recepção. Acabaram os problemas de armazenamento e distribuição difícil e onerosa. O filme é transformado em arquivo digital e armazenado em um servidor que o envia por satélite para recepção em todo o mundo.

As gravadoras começam  a comercializar música em mp3 para venda direta  ou em cartões digitais só de leitura  que como um pen drive traz mais músicas que um CD. Um cartão magnético de memória é inserido no “slot”  USB do aparelho de som. Não risca, não arranha, não mofa, o espaço de armazenagem é muito pequeno, o custo menor. Quem colecionava vinil deve abrir espaço para a coleção de cd-rom  de musica já está se despedindo e levando com ele o primo rico bluray.

A transmissão da voz e de músicas  por rádio digital foi aprovada pelo governo. A nova tecnologia começa a funcionar em caráter experimental, em 12 Capitais.  O rádio digital permite a compressão dos sinais de voz, abrindo o canal de rádio para a transmissão de dados como textos e imagens. O rádio digital  permitirá a transmissão de até três programas simultâneos, na mesma frequência, para públicos diferentes.

Os suportes físicos e fixos de inscrição da informação acabaram.   Saudosistas se agarram as tecnologias antigas,  pois mudar é sempre difícil operacionalmente e psicologicamente.  Mas é uma benção podermos viver o nosso tempo,  livre das amarras de um passado que …passou.

Aldo de A Barreto

Um interesse ilumiminado

Um interesse ilumiminado, citando:

Muito do que descobri na minha me me iluminou sobre o grau em que estamos programados pela nossa ambiência, cultura e instituições. O agir com auto-interesse esclarecido coloca a razão na implementação de uma atuação.

“Enlightened auto-interesse” é uma filosofia ética que afirma que pessoas que agem para promover os interesses dos outros (ou os interesses do grupo ou grupos a que pertencem), em última análise, servem a seus próprios interesses.

Eu quero acreditar em um futuro social e econômico que é de convívio e cooperação vibrante, próspero, trazendo uma vida melhor para todos. Devemos viver com paixão, manifestar os nossos sonhos, e não causar sofrimento aos outros neste processo. Estamos engajados em um processo de aprendizagem e melhoria que praticamos em convívio e mutuamente. Cooperando não colaborando. É necessario nos divertimos jogando os jogos infinitos e ainda ter o trabalho feito. Estamos vivos e futuro é agora.

Então Giddy up (pra frente).

Fonte: Venessa Miemis in Core Principles for the New Economy: Human Agency & Enlightened Self-Interest
http://bit.ly/yhy0ed

Leia e pense !

Leia e pense !

Uma entrevista de  Aldo A Barreto realizada no ano de 2002

Observação:  Esta entrevista foi realizada por e-mail no mês de Outubro de 2002, há dez anos atrás,  por Leonardo Melo  então estudante de Biblioteconomia da Universidade Federal Fluminense. Posteriormente foi citada por Rafael Capurro e outros autores, aparecendo referenciada  nas buscas dos browsers da internet, mas a entrevista em si desapareceu da web com a finalização do site que a hospedava [ http://www.leiaepense.kit.net%5D . Por esta razão disponibilizamos o documento neste blog, atendendo a quem procurava a referência. Vale notar que são reflexões recorrentes  para o ano de  2002 e que muitos dos temas abordados foram republicados depois em outros documentos que publicamos.

Leonardo Melo: Quais os obstáculos aos profissionais da informação que desejam dedicar-se à pesquisa em C.I. no Brasil? Apenas a ausência de políticas públicas de incentivo à pesquisa? Em que medida as condições de formação profissional, a partir da graduação, estabelecem limites ou favorecem o caminho da pesquisa na área?

ALDO BARRETO: Nesta contemporaneidade (fim e início de século) fica realçada a transitoriedade da realidade e mais ainda do setor de informação, que sofre influência direta de tecnologias intensas em inovação e em constante mutação. Estas tecnologias são derivadas da microeletrônica e da telecomunicação, com suas técnicas  correlatas de processos, insumos e equipamentos.

A Sociedade Brasileira de Informação se coloca nesta realidade emergente como um anseio do Estado e uma esperança da sociedade. Ao examinar esta situação observa-se, desde agora, dois posicionamentos que necessitam de um equilíbrio harmônico: o primeiro relacionado a uma infraestrutura técnica de modems, protocolos de transferência de dados e rede nacional de telecomunicações pretendendo ao ampliar o acesso às redes eletrônicas promover a democratização da informação. O segundo, não negando a necessidade do desenvolvimento de uma infraestrutura nacional de tecnologia de informação, procura refletir sobre o conteúdo da informação, as aplicações desta rede e como os significados associados á estes conteúdos poderão ser repassados à sociedade criando uma relação informação, conhecimento e desenvolvimento humano.

Este novo cenário de espaços desterritorializados privilegiará, ainda, parcerias e trabalhos cooperativos, associações nacionais e supranacionais. O profissional da informação quando executando suas práticas como suas pesquisas, pensa na fundamentação e explanação da área; este é um profissional em continua e constante mutação, precisando sempre e continuamente de novos conhecimentos.

“Eu só amo aqueles que sabem viver como que se extinguindo, porque são esses os que atravessam de um para o outro lado”.[i] As palavras citadas são uma referência de posicionamento para o trabalhar com a informação.  O profissional desta área se encontra, nesta atualidade como se em um ponto no presente entre o passado e o futuro.   Convive com tarefas e técnicas tradicionais de sua profissão, mas precisa atravessar para uma outra realidade, onde estão indo seus clientes e aprender conviver com o novo e o inusitado, numa constante renovação da novidade. Estas são mudanças dinâmicas em um estático panorama do ensino no Brasil, principalmente nesta área e na graduação. Não se pode atribuir culpa excessiva às políticas públicas; o pensar e o fazer de uma área de conhecimento é em grande parte um privilégio e um dever daqueles que nela trabalham.

Na língua inglesa existe uma diferença fundamental entre as palavras “policy” e “politics”. Policy significa o conjunto de procedimentos para a execução de uma ação; é o lugar dos programas e planos de execução dos projetos e anteprojetos dos “green papers”, os livros verdes. A arte de governar e’ explicitada, e o governado participa ativamente da policy, neste momento, ainda, com um sentido como que, privado em referência a sua aceitação na sociedade.

Já “Politicts” representa a ação do Estado, grupo organizado com seus cidadãos. È o lugar onde, as atividades, as ações se exercem entre os homens correspondendo a uma condição da pluralidade. A arte de governar torna-se a prática de governo. Aqui os projetos adquirem a condição onde, suas ações devem afetar os seres humanos em uma circunstância de igualdade e de aceitação recíproca.

Se o governo escolhe e executa o objeto da ação ele determina o curso dos acontecimentos; pode até estar fazendo um bom planejamento, mas não um planejamento com as características participativas, pois, estará determinando ao mesmo tempo a policy e a politics. A arte de governar implica em uma articulação com quem utilizara’ ou sofrera’ as consequências do objeto planejado. De outra forma o plano dificilmente se fará ação, quedará pelo peso inerte e desbalanceado de um discurso de intenções e perecerá no esquecimento das gavetas.

Pois assim as ações da área de informação não dependem, unicamente, da orientação do governo A área peca por: “incompetência tecnológica”, “individualismo exacerbado” e a “formação clusters de trabalho por relações sociais secundárias e não por merecimento ou competência”.

Leonardo Melo: A atitude investigativa está somente na pesquisa de trabalho acadêmico?  A elaboração de um tesauro ou de uma tabela de temporalidade requerem também uma atitude investigativa? Quais as diferenças fundamentais?

Aldo Barreto: O “lócus” privilegiado para pesquisa é a academia: sociedade ou congregação, particular ou oficial, com caráter científico, mas não somente a universidade.  Segundo o presidente da Academia Brasileira de Ciências Eduardo Moacyr Krieger no Jornal da Ciência E-Mail da SBPC de 01/agosto/2001 – No. 1843:

“Nos EUA, por exemplo, dos 270 milhões de habitantes, um milhão de pessoas se dedicam à C&T e 85% estão no setor privado. Apenas 15% são encontrados na Universidade. Os PhDs estão trabalhando majoritariamente na indústria, completou”.  No Brasil é o inverso. Dos 80 mil dedicados à ciência e tecnologia, 90% estão no setor universitário e entre 6% e 7% se dedicam ao setor produtivo. A pesquisa cientifica brasileira anda lenta com relação aos países do Primeiro Mundo e ha’ enormes diferenças regionais. Enquanto o Sudeste concentra 80% desses estudos, o Nordeste tem apenas 15%. Anualmente são obtidos 4.109 títulos de doutor em Universidades do Centro-Leste do país e apenas 147 em Universidades do Nordeste. Ele lamentou que as instituições privadas e a indústria não investem no setor, ao contrario do que ocorre nos países desenvolvidos.

A pesquisa tem características peculiares no Brasil. Há ainda que se conceituar pesquisa para uma melhor clareza da resposta à sua pergunta: Entendemos que uma pesquisa é um processo orientado para expandir as fronteiras do conhecimento; representa uma investigação ordenada e original que é coerente com uma linha de pensamento conceitual e teórica; segue uma intenção de mostrar evidências, através de um método racional de ação e experimentação e tem sempre a intenção de descobrir novas fronteiras de atuação e aplicação para um determinado campo de conhecimento.

Uma pesquisa possui assim os ingredientes básicos:

·        tem clara  intenção de produzir novo conhecimento;

·        é uma investigação ordenada, racional e original;

·        tem uma base conceitual evidente, claramente explicada;

·        possui um caminho claro, preciso e racional para atingir sua meta.

Nesse sentido, as elaborações de um tesauro, de umas bases de dados ou umas tabelas de temporalidade podem resultar de uma atitude investigativa de alto nível. Mas uma atitude investigativa sobre um objeto não o qualifica como uma pesquisa. No meu entender, os estudos acima indicados não se qualificam como uma pesquisa, embora possam resultar como subproduto de uma pesquisa. As palavras chaves para se determinar uma pesquisa são: originalidade, novidade, acréscimo do conhecimento revelado à base teórica da área.

Leonardo Melo: A gritante falta de recursos financeiros e recurso humano na pesquisa em Ciência da Informação no Brasil resulta de quais fatores, além da carência de verbas para tal?

Aldo Barreto: Existe uma falta de recursos que é própria da vida de um país como o nosso agravado pela discriminação orçamentária das áreas de ciências humanas e ciências sociais aplicadas. Existe uma explicação geral e específica para isto. A geral seria que: em um mundo global volta o pensamento das vantagens comparativas de Ricardo; os países do centro que possuem densidade em: pesquisa, laboratórios, técnicas, aparatos, recursos humanos e recursos financeiros fariam a pesquisa de ponta, inovadora. Os países da periferia consumiriam e/ou adaptariam esta pesquisa, pois não teria sentido duplicar. Não confunda, aqui, o pensamento colocado como sendo minha opinião.

A explicação específica seria a de as ciências humanas e sociais tem como objeto amplo o homem em seus espaços de convivência; são contextuais e explicam uma determinada realidade pesquisada, não possuem o grau de generalização das exatas. Daí seu interesse ser local mais que uma pesquisa de física nuclear de resultados gerais aqui no país como no resto do mundo. As ciências do homem sofrem também do que já falamos: um individualismo excessivo e uma forte agregação de seus membros por relações sociais secundárias, mais que por competência.

No Diretório dos Grupos de Pesquisa as informações enviadas pelas Instituições são aceitas como verdade. Não é função dos preparadores do diretório avaliar o material recebido, até porque o mesmo já passou pela avaliação, por exemplo, do diretor do Instituto ou do vice-reitor acadêmico da Universidade. Assim na formação dos grupos de pesquisa as condições que falamos no parágrafo anterior têm bastante influência. Pelo meu conhecimento da área pressinto que, somente, 40 % dos grupos em ciência da informação existem realmente ou quando existem estão fazendo pesquisa, o que vale, também, para o número de pesquisadores. É uma obrigação de cada comunidade se autoregular e indicar ao CNPq, autor do Diretório, estas irregularidades, quando da discriminação do conteúdo dos 78 projetos.

Leonardo Melo: A “juventude” da área (entre outras características) é em si um atributo negativo ou também aponta para desafios positivos de uma área historicamente recente?

Aldo Barreto: Uma área de conhecimento não pode se justificar durante uma geração inteira com a desculpa de “ser uma área nova”, compensando assim seus achaques existenciais. A ciência da informação tem mais de 50 anos, já é uma senhora. A sua irmã Biblioteconomia conviveu com tempos infindos. A juventude é a esperança da área em sua sobrevivência; área atualmente, envelhecida e cansada das lutas para subsistir no mundo e nos seus espaços de convivência, luta por respeito acadêmico, competência, produtividade e ideias novas.

Não resta muito tempo; a juventude deve se assenhorear desta continuidade tão rápido quanto seja possível.  Nossa missão está cumprida da forma como conseguimos cumprir. Que nos fique o aconselhamento, os escritos e as escrituras e a esperança de que nosso trabalho não tenha sido em vão. Domenico de Mais, socióloga do trabalho, diz que o problema de desemprego dos jovens seria solucionado, se seus pais passassem a trabalhar meio expediente, ou melhor, abrissem uma vaga inteira no mercado de trabalho.

Leonardo Melo: Dadas as atuais características da Ciência contemporânea, será que pode haver dúvidas de que a informação é o objeto de estudo da Ciência da Informação?

Aldo Barreto: Realmente não sei. Tenho que pensar primeiro no que considero o objeto da ciência da informação. Objetivos bem definidos, para uma área de estudos norteiam todo o pensamento subsequente em sua estruturação. Orientam sua pesquisa, o seu ensino, delimitam suas fronteiras, às inter-relações com outras disciplinas e o seu núcleo temático.

Neste final de século e devido a sua interação com uma tecnologia intensa, a ciência da informação redefine o conteúdo e a prioridade de seus objetivos frequentemente. Há cinco anos seria difícil ver como um dos objetivos da ciência da informação o estudo de bibliotecas virtuais, periódicos científicos on-line, correio eletrônico, listas de discussão eletrônica. Mas defino como o objeto da ciência da informação como: “ A ciência da informação se preocupa com os princípios teóricos e as práticas da criação, organização e distribuição da informação. Estuda os fluxos da informação desde sua criação até a sua utilização pela transmissão ao receptor em uma variedade de formas e através de uma variedade de canais; mostra a Essência de um fenômeno de transformação, entre uma linguagem do pensamento de um emissor para uma linguagem de inscrição de uma informação e a passagem para uma possível apropriação do conhecimento pelo receptor em sua realidade, onde se processa sua odisseia individual de desenvolvimento.”

Vista assim a ciência da informação só se explicaria como  uma ciência interdisciplinar. Creio que a abrangência da ciência da informação pertence a diferentes mundos e às suas interações.  A importância relativa, desses mundos, em um determinado tempo, estará indicada pela prioridade que os seus atores colocam no de valor, das intercessões e dos espaços delineados pelos três mundos da informação, desenhados abaixo com inspiração em Karl Popper[ii].

É na articulação destes espaços mundo, em suas prioridades, que estão localizadas: a pesquisa o ensino, a interdisciplinaridade e a atuação do profissional em Ciência da Informação.

LEONARDO MELO: A informação é o bem maior de uma sociedade globalizada?

Aldo Barreto: Que forma de atuação da informação eu perguntaria primeiro. Quando falamos dos estoques de informação, os acervos, o quantum de informação armazenado, penso que, poderíamos dizer que, este é um dos artefatos com que opera a sociedade globalizada, ou melhor, a sociedade globalizada opera com a posse e a distribuição dos estoques de informação. Mas veja, estoques estáticos de informação institucionalizada não geram conhecimento. Existem como possibilidade, como potência na condição de gerar conhecimento. Os livros todos nas estantes da Biblioteca Nacional, por exemplo, em seu estado estático de estoque não geram qualquer conhecimento.

Para que o conhecimento opere é necessária uma transferência desta informação par a realidade dos receptores e uma conjuntura de apropriação desta informação pelo individuo. Nesse momento nada é menos globalizado que a informação, pois nada é mais subjetivo e privado e individual que, a assimilação do conteúdo de uma informação pelo receptor. Nesta solidão de assimilação o receptor é uno e a apropriação da informação é dele e de mais ninguém. Wittgenstein [iii] fala sobre este momento com solenidade; “não podes ouvir Deus a falar com outrem só o podes ouvir se fores tu a pessoa a quem a palavra é dirigida. Isto é uma observação gramatical”. Neste fluxo de passagem a informação é totalmente individual.

Leonardo Melo: Diante da nossa realidade e da complexidade em formular conceitos da ciência da Informação, poderíamos dizer que é necessário deixar um pouco de lado questões teóricas de definição para nos dedicarmos um pouco mais no desenvolvimento de ações sociais?

Aldo Barreto: Não acho que seja uma barreira a formulação de conceitos para a ciência da informação.  Formulei-os à vontade nessa entrevista. Penso que é imprescindível não deixarmos de lado as questões teóricas, sob pena de não sabermos mais, onde estamos e o que fazemos. Entre outras coisas a teoria explica as práticas, as aplicações a as coloca em um mesmo tecido, com consistência e sentido de pertencimento a um todo coerente.

Aliás, só a teoria me permite alongar a sua pergunta quando penso que:

As estruturas de informação (documentos) são armazenadas ou estocadas no que, denominamos de estoques de informação. Estes agregados podem ser tais como: acervos em bibliotecas ou outro centro de informação ou documentação, bases de dados, arquivos ou estoques em um outro meio eletrônico. O destino final de qualquer agregado de informação pode ser expresso em três equações básicas:

a) K= f (I)

O conhecimento é uma função da informação, como colocado na definição que assumo para a informação: estruturas simbólicas com a intenção de gerar conhecimento no individuo, e seu grupo social.

b) D = f (K)

O desenvolvimento do indivíduo e da sociedade é função do conhecimento acumulado como estabelecido por elementos da teoria econômica e da própria condição humana; e assim operando a e b:

c) D = f (I)

O desenvolvimento é uma função da informação.

Assim é nossa crença que o destino final, o objetivo do trabalho com a informação é promover o desenvolvimento do indivíduo de seu grupo e da sociedade. Entendemos por desenvolvimento de uma forma ampla, como um acréscimo de bem estar, um novo estágio de qualidade de convivência, alcançado através da informação. A ação social maior é fazer a luz brilhar para cada ser humano através da informação como mediadora do conhecimento, a luz nos homens. Agostinho, o Santo na sua conversão clamava: “de que adianta esta luz Senhor, se ela não brilha em mim”.

Notas:

[i] Nietzsche, F. – Assim Falava Zaratustra, Editora Tecnoprint S.A, Rio de Janeiro, [sem data], primeira parte, Preâmbulos.

[ii] POPPER, Karl, Objective Knowledge, Oxford University Press, 1979

[iii] Wittgenstein, L., Zettel, Edições 70, Lisboa, 1981.

Os mundos da Informação