Aldobarreto's Blog

A responsabilidade do autor

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“Está tudo na palavra. A lucidez traz um dom e um castigo.  Lúcido vem de Lúcifer, o arcanjo rebelde, mas é também é o luzeiro do amanhecer, a primeira estrela, a que mais brilha e a última a se apagar.  Lux e Ferous, Deus e Demônio, o prazer e a dor.    O silêncio da compreensão.”  (Pizarnic,A.) 

 

Um  artigo e publicado na Internet sobre citações bibliográficas se enganou em seus resultados, pois ao empregar dados secundários utilizou-os mal tomando a parte pelo todo.  Não conseguiu determinar com coerência ou exatidão o seu “corpus da pesquisa” que chamado de “recorte” ou o  retalho  é  da mais alta pertinência para um autor credenciar seu estudo ou sua obra.

 

É sempre um problema conhecer o que  o “corpus da sua pesquisa”,   que não é um simples corte de um todo mas, o recorte arbitrário de elementos que o pesquisador define para aplicar sobre eles uma metodologia e atingir o seu objetivo. Logo, a construção do corpus é uma escolha do pesquisador, que deve ser explanada e justificada no bom trabalho. Barthes define corpus como “uma coleção finita de dados determinada de antemão pelo analista”. Este recorte está dentro de uma população ou universo de dados: o conjunto de todos os elementos que possuem uma ou mais características em comum.

 

Após ter circunscrito o seu campo de análise o pesquisador tem três possibilidades: ou recolhe dados e faz incidir as suas análises sobre a totalidade da população coberta por esse campo; ou a limita a uma amostra representativa desta população; ou estuda apenas alguns componentes típicos, ainda que não estritamente representativas, dessa população, como um todo. A escolha é, na realidade, uma opção do investigador visto que na maior parte das vezes está  em conjunção com os objetivos da investigação.

 

O artigo, em questão, se enganou ao fazer um recorte nos dados utilizados, pois não definiu adequadamente nem o corpus nem o universo de sua pesquisa de forma adequada.  Ao fazer um recorte, que é uma fratura do universo, o pesquisador tem de avaliar e contornar todas as variáveis que incidem sobre aquele retalho para ser correto e lógico. O recorte quando feito sobre um universo de citações de artigos de determinada área, por exemplo, deve apreciar aspectos fundamentais do tema em questão. Um dos aspectos no tema citações é o fator de impacto, também chamado fator h, referente a configuração do pesquisador com suas citações.

 

Este fator de impacto das citações, ou h-index em inglês, é indispensável para quantificar a produtividade e o impacto de um cientista quando trabalhando com os seus artigos citados. Em outas palavras, o índice h o indica o número de artigos escrito pelo pesquisador que possuem uma determinada quantidade de citações. Um pesquisador com o índice pequeno, por exemplo, h = 5 , indica que ele tem 5 artigos que receberam pelo menos 5  citações;  com um com índice h = 15 ele tem 15 artigos com 15  citações; e assim por diante. O fator de impacto de um pesquisador em relação a sua produção científica modifica a conjuntura das citações e dos  estudo relacionados. O índice já é requerido pelo Currículo Lattes.

 

Um “recorte” em um estudo sobre citações, sem levar  em conta o  “fator de impacto” do pesquisador pode levar a uma sequela de interpretação; pode-se ter um artigo muito citado , mas que o pesquisador só tenha escrito este artigo em toda sua carreira. O que não o torna um pesquisador produtivo, mas um pesquisador de um único bom  artigo. Tem seu lugar  ponderado nas condições da comunicação cientifica mais não pode ser nunca indicado como o autor mais citado da sua área. Vale lembrar que tanto o número das citações como o fator de impacto está disponível,  facilmente, para o acesso de todos  através do Google Acadêmico e de outras bases credenciadas de contagem de citações.

 

O que torna um indivíduo um autor é um conjunto de condições capazes de aproximar seus discursos e estabelecer elos pertinentes com o pertencimento de sua escrita. Por isso, Foucault diz que as condições de identificação da autoria — literária, científica ou filosófica– constitui uma espécie de foco de expressão de uma “obra” com seu autor. A função de autor não se constitui de forma universal em todos os discursos. Mas, o autor é julgado o pai e proprietário de sua obra; e a ciência literária aprende, pois a respeitar o manuscrito e as intenções declaradas do autor e a sociedade postula uma relação verdadeira do autor com a sua obra. Isso deve ser respeitado em estudos e contagens sobre os autores e sua obra.

 

O autor não é aquele que se imiscui como o ordenador, disciplinador ou contador de qualidades…de uma escrita e sim aquele que a escreve do começo ao fim.  O que faz de um indivíduo um autor é o fato de, através de seu nome, ser possível demarcar os demais textos que lhes são atribuídos como sua propriedade,  por ter sido sua a escrita da coisa. A autoria do discurso escrito quando aliado ao documento revela e delimita o pertencimento do texto ao autor e ao campo do conhecimento. O autor já possui a propriedade do conteúdo que lhe foi conferida “res publica” e o discurso fala só o nome de um autor.

 

Vale lembra uma parte do artigo sobre “Definições exatas de má conduta científica” publicada na revista Fapesp de São Paulo em edição número 204 – Fevereiro de 2013 escrita por por Daniel Bueno.

 “Após avaliar centenas de publicações, um grupo de pesquisadores da Universidade de Barcelona, Espanha, e da University of Split School of Medicine, Croácia, constatou que, sem a formulação de políticas que definam explicitamente quais são os tipos de más condutas na ciência e quais procedimentos devem ser adotados, a padronização das boas práticas acadêmicas é dificultada.. …  

Dos 399 periódicos científicos analisados, 140 forneceram definições explícitas de má conduta. Falsificação foi diretamente mencionada por 113 publicações; fabricação de dados, por 104; plágio, 224; duplicação, 242; e manipulação de imagem, por 154.

 A interpretação de estatísticas possui enorme amplitude de reflexão;  os interessados em estudos de citação devem ter grande discernimento para não provocarem estudos de citações desgovernadas.

Aldo de Albuquerque Barreto

fevereiro 2014

A economia das mídias pesadas

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Para praticamente todos os setores da economia e da sociedade,  os planejamentos, programas e políticas da década de 1990 ou anteriores, tiveram que ser adaptadas devido a uma condição superveniente que modificou o mundo: a Internet e sua configuração gráfica,  a Web. No meio acadêmico esta nova condição afetou, em alguma forma, todos os campos de conhecimento, mas atingiu primeiro e mais forte aqueles que lidam com informação, comunicação, documentos e documentação.

 

A proximidade do leitor com a disponibilização da informação na nova economia digital tem uma incrível força de indução para a modificação da edição e leitura de conteúdos antes em papel para a formatação digital. A demanda por textos digitais utiliza diferentes formas através de diferentes canais,  mas a proximidade ao receptor é uma vantagem. O público que consome informação também a produz agara com facilidade participativa. Há um novo curso na edição e distribuição de textos para o formato da escrita e da fruição da leitura que é diferente do existia no mundo antes  da Internet.

 

Vivemos uma atualidade sem perceber suas reais modificações, pois não existe um distanciamento adequado para que possamos vivenciar as mudanças que estão acontecendo. Estamos  em um momento do presente como encenando uma performance “brechtiana” onde nosso atuar contracena com o estranhamento de nosso personagem, pois a memoriza de sua “fala” é de uma realidade que está no futuro.

 

A velocidade nas transações e a  socialização da web interferiram em todas as atividades relacionadas à condição humana mudando  praticas de fazer por tradição. Esta ingerência aconteceu forte nas áreas relacionada com a geração, distribuição e uso da informação.  O conhecimento que marcou este campo nos últimos 50 anos continua, contudo,  evitando a entrada das práticas novas e quer seguir desempenhando seu ofício com a ideologia tradicional e apaixonada do mundo dos impressos em papel e tinta.  As novas condições de escrita e leitura digital revelam que alguns intermediários do passado  estarão fora da cadeia de comercialização e distribuição das narrativas digitais.

 

A produção de conteúdo digital colocou todo o sistema da economia da leitura em questão. Se não há nenhum artefato físico a ser processado para venda, o que determinaria o preço a ser dividido entre editor, autor e livraria e como ficaria todo o resto do trabalho que era executado pelas tradicionais plantas de produção editorial? A digitalização termina com a enorme estrutura voltada para a impressão em papel e tinta. O mundo digital prescinde do trabalho de uma casa de edição de grande tamanho.

 

Este assunto quando tratado em bases técnicas e econômicas, não é mais uma discussão baseada no sentimento de fidelidade a qualquer tipo de mídia; todos aqueles que tratam com a informação em uma condição profissional não podem por afetividade a um suporte  ignorar um futuro que se delineia definitivo. A tecnologia estabelecida luta sempre para continuar e tenta fechar o mercado para técnicas emergentes. Acontece com todas as inovações em todas as épocas; mas uma nova tecnologia quando aceita pela sociedade suplanta a antiga para sempre. O navio que afunda deveria transformar o acabamento em um belo baile, onde a celebração do novo seria  mais importantes que a tragédia em si.

 

Quem visitar o site da “Amazon”, agora estabelecida no nosso país,  conhecerá as facilidades do acesso aquisição e recebimento do conteúdo digital. O livro impresso, quando comprado no exterior,  pode levar até tinta dias para chegar a sua destinação, passa por  alfândegas, oceanos de distância e vários entraves burocráticos no destino, acumulando custos. A versão digital estará no computador na biblioteca em minutos após a compra e quase sem  intermediação.

 

Mas apesar de qualquer formato vale lembrar que a recepção positiva da informação é a finalização de um processo de aceitação da  que transcende o seu uso em qualquer base, é um ato de apropriação, uma percepção que atravessa visceralmente o sujeito na afetividade de uma conexão bem realizada.  Este é o destino final e raro do fenômeno do conhecimento ao criar condições modificadoras  e inovadoras para o indivíduo e sua vivência.  Fluxos apropriados pela consciência em um processo que se realiza no mais oculto de sua subjetividade.

 

Aldo de A Barreto

2014

Releia também: Eu sou o espetáculo :

http://avoantes.blogspot.com.br/2009/10/eu-sou-o-espetaculo.html

A informação quando trazida a cavalo se alastra desacelerada…

giuseppe maiorana

Em entrevista a Revista Ñ do jornal O Clarin, Ricardo Piglia, escritor argentino da atualidade fala do “Elogio de la lentitud.”:

“A circulação da escrita parece alcançou uma velocidade extraordinária, mas o paradoxo é que o tempo de leitura não mudou. Lemos, hoje, como líamos no tempo de Aristóteles: vamos decifrando signo após signo e isto nos coloca em uma situação similar da época em que a circulação da escrita não era tão rápida”.

“O autor W. H. Hudson nos conta em “Allá lejos y hace tienpo” um livro de 1918 sua vida nos pampas argentinos e de como lhe chegavam para leitura os romances e depois de os ler, os emprestava para fazenda vizinha, cinco quilômetros adentro, que depois era emprestada a uma outra mais para frente. A escrita ia se alastrando a cavalo.” (J.Clarin, janeiro 2008) Em 2013 outro autor vinculado a uma consultoria americana escreve” O vicio da distração”, livro em que defendo os mesmo pontos de desacelerar a procura por conteúdos. [ ver em <http://oglobo.globo.com/tecnologia/quando-grande-curticao-desacelerar-coracao-mente-10444711>]

A Internet e a web vieram desestabilizar fortes interesses de velhas mídias e, também, padrões estabelecidos em todas as áreas do conhecimento. Uma nova tecnologia da informação desarticula práticas e teorias em todos os campos de atuação profissional. Isto gera desconforto, prejuízo e a crítica apadrinhada.  Acredito que estamos vivendo um novo modelo de acesso à informação. Estamos vivendo momentos fascinantes presenciando uma modificação nos modelos de comunicação entre os homens que vai transformando tudo ao seu redor.  Viver este tempo sem o percebimento do que esta acontecendo é uma perda lamentável em ser testemunha da sua própria história; da mudança que esta em se fazendo agora.

Os canais de transferência  de informação são diferentes hoje, em estrutura e velocidade;  a informação não vem mais a cavalo e a interatuação necessária para manter em contato emissor e receptor passa por um novo regime de transferência e por uma nova forma de escrever e de ler. Contudo, os tempos de acesso e reflexão para interiorizar conhecimento são completamente diferentes:  só o tempo de acesso à informação mudou na economia da velocidade e  é imediato;  o tempo para assimilar a informação é individual para cada receptor distinguido pela sua sensibilidade, foco e concentração para interagir e perceber os conteúdos.

A possibilidade da conexão imediata em tempo real modificou a condição de disponibilidade e acesso à informação, antes acervada em palácios de estoques, que podem tolher o livre acesso do usuário, até pela tensão psicologia gerada para adentrar seus inibidores portais.   A informação em estoques digitais é socialmente mais justa, pois amplia a inclusão informacional e a possibilidade de aceso a uma quantidade de conteúdo antes impensável ao usuário de menor condição sócio-econômica.

Há quem prefira andar a cavalo e os que fazem opção pelo avião.  O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem dizia Fernando Pessoa o poeta.

Aldo A Barreto

imagem de giuseppe maiorana

Viver na terra e no mundo

terra mundo_Fotor

Com a popularização da web por volta de 1995 podemos diferenciar uma ambiguidade vivencial de estar na terra ou ficar no mundo. A terra é a parte sólida do globo, espaço e território da vida temporal profana e física.  E é na força desta atração que a terra passa a ocupar um lugar no universo das realizações físicas;  um lugar que converte o espaço em possibilidades de:  fixar, espacializar e localizar.  Ao longo da história, a terra tem proporcionado aos homens os recursos para criar, viver, morrer.

 

No mundo virtual vivemos potencialmente. Eu existo virtualmente no mundo sem distancia espaço ou tempo definido. Minha vivência é a da conexão e meu destino são os meus links.  Potencialmente  existo na translação da metáfora, na transferência das minhas narrativas para um âmbito simbólico que não é fixo, físico ou designado e se fundamenta num movimento sem corpo.  Na terra vivemos presos a uma presença física para exercer nossas ações; no mundo potencial vivemos sem uma presença física.

 

É difícil entender e observar o momento exato em que estamos inseridos. Existe uma proximidade alienante que nos impede de ver à atualidade de nossa vivência. Existe uma relação intrincada entre nós e o tempo que  nos impele a viver suspenso entre duas conjunturas:  a terra e o mundo.  Habitar uma realidade é um entendimento de estar ali com intensidade.  Talvez por isso não possamos ter o afastamento necessário para entender que habitamos hoje duas realidades: uma realidade objetiva onde vivemos corporalmente com uma presença e outra realidade potencial de rompimento com as formas tradicionais do acontecer e sendo posto do ao atual carrega uma potência de ser. Nessa realidade, por suas características, vivemos sem a presença física,  sem distancias ou superfícies.  Nela podemos ser o avatar de tudo aquilo que sonhamos ser na realidade contemporânea.

 

É importante saber, então, que habitamos hoje  duas realidades na mesma época. Esta anfibiedade que vivemos é a capacidade adquirida de morar e interatuar em contextos e condições diferenciadas. É a anfibiedade do animal que pode viver no solo ou na água. Aterrado no viver físico da terra ou libertado de amarras para viver no mundo potencial.

 

A evolução da web nos levou a está vivencia diferenciada e a esta nova condição de sermos anfíbios. Uma anfibiedade que faz nosso viver na realidade da objetiva e na realidade potencial onde existimos linkados aos outros que executam a transferência do que somos para um significado decidido pelos que nos designam no mundo potencial.

evolução nova_Fotor

 

Aldo de A Barreto

Setembro 2013

Um certo olhar determina a visualização da informação com possibilidade de leitura

Capturar

Pesquisa recente mostra que as pessoas, em média, somente leem de 20 a 28 por cento das palavras em uma postagem ou de site da web; estudos associam, ainda, que o movimento dos olhos – eye-tracking – tendem mais a escanear  um espaço de informação que ler totalmente páginas e postagens da web. Um escaneamento do olhar para uma verificação de relevância e prioridade do material exposto para leitura  [1]

 

Eye-tracking é uma tecnologia que rastreia os pontos em que o olhar de um leitor em relação a uma tela  do computador quando navegando na web. Esta tecnologia acrescenta uma dimensão poderosa para a pesquisa do comportamento do usuário leitor, pois permite que se entenda exatamente a primazia do olhar, ou seja  – o que eles  veem – e que eles não observam – em uma página web.

 

Um exemplo de um eye-tracking com “heatmap” mostra, em média, quais os espaços que usuários-leitores  observam em uma página web. As áreas mais visualizadas estão na cor vermelha e as áreas amarelas indicam aquelas de menor  visualização, as azuis  não são visualizadas. Outras  áreas não atraem potencial uma atenção para fixação do olhar. [1] Há indicações  que “eyetracking time” inicial ,médio,  para avaliar o interesse e intenção de leitura web, incluindo vídeo, textos, tabelas, quadros , etc. é de 90 segundos.

 

eyetracking_heatmap (1)

Os conectados na web dispendem uma média de 90 segundo  em um ciberbloco para decidir se vale continuar a leitura ou marcar o local ou nunca mais  acessar a URL.  Temos que fazer uma adaptação da escrita digital para estes parâmetros. A primeira coisa a mudar seria o modo de escrever para a web. Há que usar o estilo da “pirâmide inversa”: comece a escrever seu texto pelas conclusões; em seguida conte ao leitor os pontos importantes que suportam estas conclusões e depois descreva o contexto da historia toda.

 

A palavra é a menor unidade semântica de uma estrutura inscrita em papel e tinta e se agrega, formando frases e sistemas de sentenças  em um conjunto simbolicamente significante. Assim, o texto impresso é um conjunto de palavras e frases articuladas, escritas em suporte papel e onde sevai de signo a signo para buscar o significado da coisa toda. Mas a unidade palavra não é a menor estrutura significante em textos digitais. “A palavra digital foi substituída por ciberblocos de visualização e assimilação  conjunta de texto com imagem e outros apetrechos visuais de explanação . O acesso a estes blocos e a percepção  é  feita com menor esforço cognitivo para sua apreensão e  potencial transformação em conhecimento. “ A palavra e a imagem são duas correlações que se buscam eternamente”  dizia   Goethe.

 

Daí que, escrever para a web exige cada vez mais poder de síntese e praticidade de uma apresentação com elementos de visualização amigável.  Ao enfeitiçar palavras para o leitor, um profissional da escrita visual ganha maior permanência para sua narrativa online.  O problema dos conteúdos impressos que geralmente usam a superfluidade de muitas  palavras perpetuam uma cultura estudantil de escrita da narrativa. O velho vício de organização das ideias em no formato: introdução, desenvolvimento e conclusão não se adaptam ao padrão web dos ciberblocos de enunciação de significados. Nossos leitores de hoje não são os mesmos de vinte anos atrás.

 

[1] Eyetracking Web Usability, Jakob Nielsen and Kara Pernice, editora New Riders, 2010 – 456 páginas

A coerência das fontes de informação

leaves away

 

Devemos ir contentes, de um lugar a outro,
Sem apegar-nos a nenhum como a uma pátria
Não nos quer atados, o espírito do mundo
Quer que cresçamos subindo 
andar por andar…

(Herman Hesse, Andares)

 

Marshall McLuhan diz em 1969: “quando enfatizo que o meio é a mensagem-  muito mais que o conteúdo e não estou indicando que o conteúdo não tem um papel no processo de comunicação  – mas querendo indicar que o conteúdo tem um papel diferente.   E continua: “se Hitler tivesse pronunciado aulas de Botânica pelo rádio, o convencimento político do meio iria reunir os alemães e iniciar as características negras da natureza tribal que criou o fascismo europeu dos anos 20 e 30.[1]

E continua: “Quando colocamos toda a importância no conteúdo e não no “meio”  perdemos toda a chance de influenciar o receptor ” dizia McLuhan.  Passaram-se 44 anos  desde esta palavras  e hoje isso não seria mais verdade com o advento e a liberdade do meio múltiplo como a Internet, onde é o conteúdo que domina todas as ações subsequentes no processo de emitir e  trocar enunciados.

Não existe mais um determinismo físico nas estruturas perceptivas de compreensão desencadeando mecanismos de  significados homogêneos. Se para McLuhan, o meio estabelece a forma comunicativa e determina o próprio conteúdo da comunicação isso com a era da liberdade das vozes  em um formato aberto da ação de comunicação digital. Temos hoje uma massa de mídia ao contrario de mídia de massa. Um universo de mídia de conexão imediata com o fato ou a fratura do cotidiano, em tempo real.

O receptor da informação  tem acesso próprio às “fontes” e lá, estabelece como um dialogo de seu interesse sem o monopólio dos intermediários fatais e seus universos particulares de linguagem. O receptor com acesso as fontes de informação arranja dados de uma maneira subjetivamente individualizada por sua preferência e escala de valor, independente dos canais formais de uma comunicação direcionadora e formadora de opinião padronizada.

O meio não é mais a mensagem.  A interatividade  das conexões imediatas permite uma interatuação multitemporal com o espaço dos fatos, ideias e ocorrências  de um cotidiano global. Novos procedimentos  modificam a vivência e a convivência na sociedade, pela  condição de publicidade da informação, onde a aceitação da coisa nova é uma decisão de livre arbítrio. Mas, nem sempre foi assim; quando no domínio das fontes impressas em papel e tinta tinha-se uma quase ditadura da publicação impressa como fonte de verdade com dominância no ambiente de produção de textos para disseminação aos pares em sua área de conhecimento. Qualquer argumento poderia ter validade nesses textos se indicado e apoiado por uma fonte impressa de prestigio institucional e político.

A informação impressa no Brasil iniciou com a vinda  da Corte Portuguesa ao Rio de Janeiro.  A partir de 10 de setembro de 1808 o primeiro jornal foi impresso no Brasil, a Gazeta do Rio de Janeiro, que publicava notícias da Corte.  A ciência brasileira começou nas primeiras décadas do século XIX. Até então, o Brasil não tinha universidades, mídias impressas, bibliotecas e museus. D. João VI incentivou o desenvolvimento das ciências e das artes. Num período curto, entre 1808 e 1810, o Governo fundou a Academia Naval Real e a Academia Militar Real, a Biblioteca Nacional, os Jardins Botânicos Reais, a Escola de Cirurgia da Bahia e a Escola de Anatomia, Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro.

A imprensa no Brasil chegou desgarrada e  tardia, mas era real o que deu grande força e de aceitamento nas forma impressas de veicular a informação por aqui. No resto do mundo não foi muito diferente a majestade da importância l da fonte indicava sua pertinência merecedora de acreditamento. A ciência da informação, também, sofreu deste nepotismo da informação impressa. Por exemplo,  baseado em na predominância política e de valorização da verdade de alguns estudos fonte foi indicado o “começo da ciência da informação” como relacionado a uma pequena reunião realizada em 1961 e repetida em 1962 no Georgia Institute of Technology no Estado da Georgia, nos Estados Unidos da América.

Esta apresentação chamou-se “Conferences on training science information specialists, october 12-13, 1961 [and] April 12-13, 1962”.  Agregou um total de cerca de 60 pessoas, nos dois anos de sua realização. A maioria dos participantes foram:  docentes e bibliotecários da própria universidade americana sede do evento. Esta reunião tratou, particularmente, do treinamento de especialistas da informação e unicamente no contexto dos EUA é o que revela as parcas 100 páginas de seus Anais.

Mas, muita confusão se faz com esta Reunião e sua e sua generalização para o resto do mundo devido à fonte que a divulgou. Alguns autores recorrendo a esta fonte davam a esta reunião como início da área de ciência da informação em termos mundiais enquanto sua intenção e atuação eram restritas a educação e basicamente nos EUA.

A divulgação ampliada desta Reunião regional  ocorreu devido a uma outra fonte impressa de grande prestigio a publicação denominada ARIST – The Annual Review of Information Science and Technology produzida pela American Society for Information Science & Technology (ASIST) com grande poder de convencimento nos EUA e dai para o resto do mundo dependente intelectualmente como era a ciência da informação no Brasil.  Estas séries anuais do ARIST iniciadas em 1966 com Carlos A. Cuadra queriam revisar os aspectos importantes do desenvolvimento da área  nos anos anteriores de cada veiculação. Contudo, devido à instituição de seu patrocínio e a sua esfera de edição havia um considerável tendência para observar o desenvolvimento da área acontecido nos EUA e generalizá-lo para o resto do mundo. Tal acontecia pela força política da publicação que  atuou com mais intensidade nas décadas de 1960, 70, 80. Muitas publicações e estudos que utilizaram o ARIST como seu corpus de suas pesquisa,  reproduziram uma visão parcial da área, acreditando-a como universal.  [2]

A ciência da informação e os  especialistas da informação tiveram acesso ao computador a partir do final dos anos  1980, quando o custo da memória digital baixou e permitiu o processamento de textos em linguagem natural. A entrada  no uso da informação digital ajuda a esclarecer fontes com controvérsias editoriais malformadas como a relatada acima.

Com a internet socializada a partir dos anos noventa  “as fontes”  fortes ou quentes passaram a ser comparadas  e questionadas online;  a sua condição de qualidade, veracidade e relevância  passou a ser um questão de ponderação individual no mundo das conexões imediatas

(AAB)

[1] Marshall McLuhan  entrevista a Revista Playboy em 1966 http://entrevista-mcluhan.wikispaces.com/

[2] toda esta parte esta referenciada em  “Uma quase história da ciência da informação” de Aldo de A Barreto em http://www.dgz.org.br/abr08/Art_01.htm

Uma diferença entre visualização da informação e arquitetura de informação

VisualArquit

A informação vincula o homem ao seu destino e durante sua existência institui as referências para ele percorrer a sua odisseia individual no espaço e no tempo. A estrutura desta  informação é considerada como sendo: uma narrativa registrada em uma base física; inscrição e estrutura formam um conjunto de elementos de um todo ordenado e com princípio lógico.   Aqui, trabalhamos com o pressuposto de que a estrutura de informação é textual, um conteúdo de informação que admite condições de programar a estrutura com uma  formação de palavras.

O texto e seus adereços alegóricos  – figuras, quadros, tabelas, pinturas, desenhos – são procedimentos fixados por uma escrita em uma base ou formato. Constitui um todo unificado e passível de ser distribuído por um canal de transferência  para acesso por um receptor interessado. O conteúdo de uma inscrição e o seu discurso de significação é uma elaboração de um autor. Quando distribuído, o texto associa à sua historia a leitura, o receptor e a sua interpretação do conteúdo que pode ser apropriado por ele e tornar-se conhecimento. É importante conhecer, então, estes  espaços organizados,  a disposição de suas partes ou elementos e as possibilidades do olhar para este aglomerado.

A arquitetura da Informação seria, então, o estudo destes espaço organizado de informação que ajuda o receptor a interagir para o entendimento do conteúdo pelo design de sua representação espacial. Uma organização estrutural do espaço de um website, sua condição textual e imagética,  sua etiquetas de significação e categorização de conteúdo.

Nos tempos atuais tem sido necessário para lidar com estruturas digitais de informação no projeto de ambientes informacionais compartilhados, estas precisam ser resistentes a desordem natural de qualquer sistema na ausência de uma força organizadora. A arquitetura de informação é o desenho da interface mediadora, para o acesso ao conteúdo, que será mais útil quanto melhor a qualidade da  interface.

A Visualização da Informação tem como objetivo o estudo das formas de representação usadas para uma  apresentação visual amigável das inscrições que formam um determinado conteúdo. As técnicas de visualização da Informação buscam adequar o espaço de uma determinada estrutura para que a representação visual gerada para o olhar seja a que melhor mostre o conteúdo para a percepção da mensagem.

Na visualização da informação procura-se reduzir ao mínimo o “estresse cognitivo” do receptor – provocado pela tensão entre o que o olho vê e o que a mente processa – na interiorização deste conteúdo percebido pela visão. Quanto mais agradável ao olhar  for a informação melhor será a sensibilidade do usuário para a sua percepção.

Quando a informação é apresentada de maneira visualmente destinada ao olhar permite uma visualização conciliadora e o esforço cognitivo é diminuído no processo de julgamento e decodificação do conteúdo. Na tranquilidade cognitiva da boa visualização o receptor tem na percepção uma fruição visual.

Assim,

A arquitetura da informação quer construir a melhor interface dentro de um espaço informacional.

A visualização da informação quer colocar  nesta interface uma afetividade para o olhar.

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Mais sobre o assunto consultar, por exemplo:

A Visualização da Informação e a sua contribuição para a Ciência da Informação
http://www.dgz.org.br/out07/Art_02.htm

Arquitetura conceitual e resultados da integração de sistemas de informação e gestão
http://www.dgz.org.br/abr03/Art_03.htm

(AAB)

A ditadura do ser criativo

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A moda,  uso passageiro e consentido de padrões que regulam a nossa forma de vestir, calçar, pentear, existir influencia a vida em comum e nos marca em tribos vivenciais. Temos, também, palavras, conceitos que caem na moda e por algum tempo são utilizados com exagerada frequência e em todos os contextos. Na maior parte das vezes não se sabe o significado preciso daquela palavra,   mas sua aplicação por imitação é vasta e confusa. Este  é o caso atual da palavra  criatividade que nestes dias domina a referencia para conseguir um emprego, mudar dele, atuar como profissional, agir em casa,  com os amigos e até em nossa condição sexual.

 

Em meu entender criatividade tem a ver com a capacidade pessoal de utilização do imaginário:  suas agregações, analogias e projeções  –  para articular uma ação orientada a um fim que leve ao sucesso. Todos os sub-conceitos que utilizei acima são complexos  e quase impossíveis de serem mesurados.  Mas o conceito criatividade nos avalia para conseguir uma colocação de emprego, para progressão neste trabalho e galgar níveis gerenciais.  Nossas testemunhas  nos avaliam por este nossos suposto atuar. Todos temos testemunhas para certificar nosso ser criativo e a veracidade dos atos de sucesso. Cada um tem  várias e  diferentes  testemunhas: no emprego, na família, com os amigos, com os alunos, com seus leitores ou pares nas diversas comunidades de convivência.

 

Mas qual o índice de criatividade em que se baseiam os donos dos “recursos humanos” para conceder o emprego que pleiteamos ao sair da Universidade ou mesmo ao mudar de emprego ou obter melhores salários.  Creio que o julgador confunde o termo criatividade com alegria, extroversão, júbilo bem treinada para o trabalho da vaga aberta? Porque a criatividade se observa durante um período de tempo,  ela não está no momento zero. Se existem indícios ou qualidades necessárias para sua futura incorporação, estas podem ou não se confirmar. Então hoje somos escravos de um conceito  que não é bem definido e praticamente impossível de ser medido no ato?

 

Julgamento inadequado da condição de inteligência,  conhecimento, percepção, competição e criatividade pode formar uma ditadura na avaliação de nossa vida. Isto para atender ao interesse da moda ou de um marketing de atração pela novidade em ligação forte com o  modismo de ocasião. Em um mundo do espetáculo estes critérios difusos podem definir a pauta do julgamento certo ou errado para o olhar  estranho de quem avalia o nosso futuro.

 

Os modos de observar o mundo têm variado ao longo do tempo. Com a internet está prestigiada a ideia de que a criatividade vem do coletivo e é maior que as cadeias de pensamento de um só indivíduo. Estes espaços sociais unem fragmentos que podem alinhavar mosaicos para indicar a possibilidade de um operar mais criativo. Mas estas ideias, ainda, não chegaram nas práticas dos mediadores de alocação dos recursos  para a sociedade.

 

Espero que minhas testemunhas considerem  está crítica  criativa, considerando a coerência de ideias que tento alinhavar.

AAB

O professor entre o presente e o passado

Capturar (1)

A liberdade é uma determinação fundamental da estrutura do mundo, do homem e da informação. Está nas zonas mais profundas de cada ser humano e de sua criação intelectual.  A liberdade de se construir alguma coisa pode se perder por inúmeras razões até pelo seu excesso de liberdade.  Mas estar livre, mas  aprisionado por desejo próprio pelas amarras do antigo, por medo de mudar, é fatal para a condição humana de qualquer profissional.

A Internet de tantos computadores conectados está livre dos intermediários fatais na comunicação da mensagem, hoje, um profissional pode ser o seu próprio publicador e disponibilizar seus escritos para julgamento de sua audiência.  O meio não determina  mais o valor da mensagem. A conectividade das conexões imediatas permite uma interatuação multitemporal com os fatos, ideias de um cotidiano profissional e global.

O professor tem agora sua missão muito mais vinculada ao ambiente das redes de convivência e a universidade está menos preocupada com a intensa especialização de seu corpo docente.  A condição do ensino está cada vez menos baseada na tarefa do mestre proferir palestras doutas em canto monótono e mais para a sua ação de guiar e interagir com estudantes.  O professor agora se assemelhará mais a um articulador de ideias e conteúdos; não é mais um mentor reproduzindo  discursos fixos e apostilados como verdade única. O professor em rede esta superconectado.*

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Resta saber se o professor e a universidade estão preparando os seus alunos para lidar com o formato dos conteúdos de amanhã em uma realidade onde não basta o computador como ferramenta e a internet como local de saber absoluto. E’ preciso uma transferência conduzida para um novo contexto de narrativas que estão em se formatando. Onde os documentos para o conhecimento podem ter uma estrutura fechada e acabada ou uma estrutura aberta e conversacional. Construímos  no quado abaixo alguma das possíveis diferenças entre os artefatos culturais abertos ou fechados**:

documentos

Fonte: autor

Os profissionais docentes e os egressos de pouco tempo, pelo menos nas ciências humanas, estão embasados em repasse de conhecimentos com núcleos de conteúdo de até cinquenta anos atrás. Viver operacionalmente uma docência,  na atual  realidade de  liberdade  de acesso a informação,   sem um compromisso com as praticas modernas de ensino é uma triste permanência no passado. Até porque, grande parte da audiência em classe sabe que existem novos artifícios de ensino e os alunos saberão desconsiderar uma docência antiga como algo que não é atual.

As comunidades online modificaram drasticamente o modelo antigo de ensino e aprendizado. Os alunos agora estão conectados, em tempo real  durante a aula e têm acesso às informações online sobre o conteúdo do qual o professor esta discursando  e o poder de atualização passa de um para outro lado. São eles que julgam  a relevância do meio e a qualidade da mensagem naquele momento e criam a sua “opinião pública” no contexto do desenvolvimento da  aula.

“O homem é corda estendida entre o animal e o super-homem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar, perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar. O grande do homem é ele ser uma ponte e não uma meta…. Eu só amo aqueles que sabem viver como que se extinguindo, porque são esses os que atravessam de um para o outro lado.”

As palavras do Zaratustra de Nietzsche são uma referência de posicionamento para o trabalhar com o ensino nesta atualidade. O profissional docente deve entender que se encontra em um ponto no presente entre o passado e o futuro. Convive com tarefas e técnicas tradicionais, mas precisa atravessar para outra realidade, onde já estão indo seus alunos e aprender a conviver com o novo e o inusitado.

Aldo A  Barreto

Notas:

* imagem de http://goo.gl/eAxuU

** Artefatos fechados são restritos pelo seu formato

São objetos de informação que se encontram explicitamente formatados e finalizados, por razões das características de sua estrutura ou por uma necessidade de integridade de seu formato. Seu conteúdo não pode e nem deve ser alterado após sua finalização. São exemplos deste tipo de objetos: livros, CDs, DVDs, artigos de periódicos impressos, imagens acabadas, documentos históricos , legais ou contratuais, etc. .
Não é a forma que determina a sua completeza, mas a impossibilidade de interatuação dinâmica com este documento após sua finalização.

Artefatos abertos são interligados em rede
São objetos de informação que estão: ou em se fazendo ou que, apesar de acabados, podem ter seu conteúdo modificado continuamente devido a um sucessivo diálogo do gerador ou seus vários usuários-geradores. Aqui o documento de informação se encontra por motivos desta interatuação em continua constituição de conteúdo. O seu valor de uso é circunstancial , pois a utilidade da sua informação para um receptor está referenciada a um determinado momento do tempo. Exemplos deste tipo de objeto seriam os artigos de periódicos online e interativos, textos de listas de discussão, os documentos em hipertexto abertos, etc.

A remixagem é uma criatividade social online

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Remixing é a reelaboração e recombinação criativa de artefatos já existentes representando uma forma generalizada e polêmica de criatividade social online. Os defensores da cultura “remix”  falam destes trabalhos em termos de ecossistemas novos e criativos. Há um fluxo constante de mídia sendo compartilhada livremente na web, mas apenas uma pequena fração desses trabalhos é remixada.  Eles não são muito diferentes das obras originais e são construídos em cima delas.

A remixagem de artefatos culturais não é uma produção nova. Já no século 12 se fazia isso com o nome e decoupage que é a arte de decorar um objeto colando recortes de papel colorido atuando em combinação, mas prouzindo efeitos especiais em uma produção original. Um objeto como uma pequena caixa ou um item de mobiliário é coberto por recortes de revistas ou de jornais. Cada camada é selada com verniz  até que o resultado se parece um novo trabalho. A “Pyramid” (também chamado pyramage) é processo semelhante ao decoupage. No “Pyramid” uma série de imagens idênticas são cortadas, em formas cada vez menores, e fixadas com espaçadores de espuma adesiva para criar um efeito de terceira dimensão.

A origem da decoupage vem da Sibéria, onde tribos nômades  cortavam feltro para decorar os túmulos de seus mortos. Da Sibéria a prática foi a China e por volta do século 12 cortes de papel estavam sendo usados para decorar lanternas chinesas. No século 17 a Itália, especialmente  Veneza, estava na dianteira do comércio com o oriente e através destas relações comerciais o “remix” entrou no ocidente.

Quando escrevemos um artigo estamos remixando ao utilizar, mais ou menos,  da referência a outro autor trazendo ao nosso texto o seu pensamento  e suas palavras.  A construção de uma escrita individual torna-se um “remix” ou uma decoupage da qual participam varias vozes. Refletimos e reconstruímos nosso pensamento através de nosso estoque mental de escritas múltiplas assimiladas, daí a importância da bibliografia em um texto escrito como indicando o mapa que seguiu nosso imaginário.

Um emissor de conteúdo ao formar sua configuração de ideias  em uma peça escrita é um autor ou um “citador”.  A originalidade de sua reflexão  se aquilata  por um pensar individualizado e livre mesmo tendo inspiração de seu arcabouço de influência cognitiva. O citador arranja em um documento, que pode ser relevante e de interesse, uma remixagem do que os outros disseram sobre o tema tratado. Caso o número de linhas de um texto corresponda, em mais de cinquenta por cento, a citações do pensamento e com palavras de outros  não se tem mais uma autoria única do texto, mas uma remixagem tentando construir nova qualidade.

Assim , também, o texto digital permite a qualquer pessoa estabelecer laços com outros textos fora de um documento central e estabelecer um link com outro  conteúdo que está acessível ao público em qualquer arquivo da Internet. Um autor pode criar um  “metadocumento” através da ligação a outros conteúdos digitais ou redirecionar seu leitor para fragmentos de explanação do seu tema. Os caminhos do hipertexto, utilizando a liberdade da Internet, estão livres das amarras do direito autoral, pois o link hipertextual é mais uma ligação de referência do que uma citação de conteúdo.

O hipertexto por sua natureza não é hierárquico;  é sem fronteiras e cada vez mais  se amolda por linkagem para outros enunciados nos textos paralelos na web;  é como construir uma bricolagem, onde cada junção de pedaços constrói,  por remixagem, em um novo ajuntamento de saber. Esta bricolagem que só se fecha no infinito é individualizada nos desenhos que cada leitor caminhante realiza no transcurso do passear por mosaicos de uma consentida mixagem cognitiva.

Aldo de Albuquerque Barreto

– Ver mais em  ” The Remixing Dilemma: The Trade-off Between Generativity and Originality, http://mako.cc/copyrighteous/the-remixing-dilemma

Da inovação de Gutenberg aos discursos de uma aturdida ave

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Johannes Gutenberg foi um inventor e gráfico alemão. Sua invenção do tipo móvel para impressão começou a revolução da imprensa e é considerado o evento mais importante do período moderno. Teve um papel fundamental no desenvolvimento da renascença e na revolução científica e lançou as bases materiais para a uma economia baseada no conhecimento a partir de conteúdos. Gutenberg foi o primeiro no mundo a usar a impressão por tipos móveis e a prensa móvel por volta de 1439. Sua invenção foi  uma combinação de elementos em um sistema prático que permitiu aprimorar a produção de narrativas impressas de maneira rentável para gráficas e leitores.

As inovações tecnológicas que Gutenberg desenvolveu foram além da ideia do tipo móvel. Ele combinou  uma série de tecnologias e inovações de diferentes áreas e é isso que tornou o seu trabalho tão poderoso. Usou desenvolvimentos metalúrgicos para criar um novo tipo de metal,  que não só tinha uma aparência consistente, mas que podia ser produzido facilmente permitindo imprimir páginas inteiras  de uma só vez. Ele usou inovações químicas para criar uma tinta nunca antes usada na impressão. Gutenberg explorou o conceito de divisão do trabalho usando uma equipe de trabalhadores para criar livros a um ritmo nunca visto na história da impressão. Gutenberg  juntou as coisas certas pela primeira vez. Usou seu estoque mental de conhecimento para agregar por “trilhas associativas” sua criatividade. [1]

Após a invenção da imprensa, Victor Hugo no século 15, em seu romance “Nossa Senhora de Paris”, narrou a história do padre Claude Frollo:  que olhava tristonho para as torres da sua catedral. Uma catedral medieval era, em seu tempo,  uma espécie de programa de televisão ao vivo. Um esplendor para festejar a esfera pública, que agregava uma comunidade com confiança permanente e imitável na vivência  pública, onde se transmitia às pessoas todo conhecimento  que era indispensável para a sua vida cotidiana, assim como,  para a sua salvação eterna.

Com a inovação na impressão da palavra na escrita, padre Frollo fitava um livro impresso  sobre a sua mesa e sussurra para si mesmo: este novo convívio de meu rebanho vai acabar com  minha catedral – o livro vai matar a catedral, pois o uso facilitado da palavra impressa irá criar um imaginário independente naquele espaço de agregação de pessoas,  símbolo de convívio da época. A impressão  facilitada da palavra escrita vai desviar as pessoas de seus valores mais importantes,  trazer a informação supérflua, permitir a franqueada interpretação das escrituras sagradas e um imaginário solto para a curiosidade insana. [2]

Mas já nos anos 60, Marshall McLuhan diz na sua “Galáxia de Gutenberg”, que a maneira linear de pensar acerbada pela invenção da imprensa estava para ser substituída por uma forma mais global de percepção e compreensão através de imagens  em vídeo e outros tipos de dispositivos eletrônicos. A supremacia do papel e tinta durou perto de seiscentos anos. Sempre houve um descompasso da grande oferta de conhecimento impresso e a pequena demanda de leitores. A disponibilidade, acesso privilegiado, assimilação e custo são os motivos, para ficar só com os determinantes  técnicos.  A impressão papel não têm mais  a força emblemática de  único transmissor de cultura. As novas formas de escrita e leitura estão diversificadas em forma e canal.

Quem não entende que a velocidade das atuais conexões imediatas é uma energia da informação digital arrisca não ver a emergência da mudança no formato dos artefatos de disseminação de conhecimento. Há na simultaneidade do ter “aqui-e-agora” uma negação do tempo sequencial. É uma a busca de interioridade para um tempo místico, um tempo no presente que é a celebração de todos os tempos. Um tempo em que há opções de enunciados em cada colocação de um discurso. A reflexão individual está ampliada pela facilidade de acesso às memórias eletrônicas e o receptor de fatos e ideias não aceita mais percorrer os caminhos mapeados dos universos formatados da ideologia sequencial da escrita impressa.

Esta  nova economia da informação influencia intensamente na tecnologia  do processo de produção dos conteúdos e seus modos de apresentação,  que deixarão  os impressos em papel  para serem quase totalmente conteúdos digitais. Isso acontecerá por uma razão econômica, técnica e lógica relacionada a custos e benefícios; uma decisão coerente para qualquer gerenciador que de outra forma estaria agindo irracionalmente. Uma decisão que nada tem a ver com a emotividade de querer acabar ou manter narrativas impressas em papel e tinta. Uma decisão mais de transferência potencial que de acervamento domiciliado. Quem desejar tratar unicamente de organizar os produtos impressos em papel, para colocá-los em estoques estáticos estará trabalhando no almoxarifado de objetos de informação e para isso só é necessário uma praticagem de fácil domínio. É uma ocupação paralela do processo de produção do conhecimento.

Assim o discurso sobre a estrutura das narrativas precisa ser revisto bem como o modo de guarda e disseminação dos conteúdos simbólicos. Há sobre isso um silêncio insensato nas áreas que lidam com a informação. O silencio do conhecimento é o silêncio da incomunicação, uma terrível desarmonia do discurso velho para uma realidade nova. Existe uma grave solenidade no momento atual que é de despedida do antigo e  acolhimento do novo. Uma nova  conjunção de “trilhas associativas” como o pensamento de Gutenberg ao criar a impressão móvel.

Mas o novo não apaga o caminho percorrido. A história de como tudo começou e aconteceu  é boa e merece ser contada. Ao domiciliar esta memória é preciso deslembrar um passado  que passou para conviver no futuro atual e transformado. Este deslembrar tem a necessidade rememorar para não esquecer a trajetória percorrida.

Contudo, apregoar o discurso antigo nos coloca na situação do papagaio sobrevivente da civilização perdida. Uma aturdida ave de cores brilhantes vivendo entre  ruínas e repetindo uma e outra vez longos discursos numa língua incompreensível.  Até não restar mais ninguém que o entenda.

Aldo de Albuquerque Barreto

[1] “The Half-life of Facts: Why Everything We Know Has an Expiration Date”, Samuel Arbesman.

[2] Umberto Eco,  Muito Além da Internet, palestra feita na Biblioteca de Alexandria em dezembro de 2003.

[3] Herbert Marshall McLuhan,  A Galáxia de Gutenberg: a formação do homem tipográfico.

Mudança estrutural dos humanos pela interação com os não humanos*

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A crescente complexidade da existência do homem e da sua capacidade mental torna necessário lidar com as complicações de uma organização sensorial e motora complexa. Para as partes do corpo estão sendo esperadas funções cada vez mais técnicas, independente da sua qualidade de uso continuar a mesma. A mente humana deveria evoluir na companhia do corpo humano. Mas esse descompasso tem aumentado com a velocidade de acesso e distribuição do conhecimento no mundo dos formatos digitais. As ligações entre mente e corpo não marcham em harmonia. É nesse delicado equilíbrio que o futuro vai estar cheio de pontos perigosos e armadilhas de percurso.

Há um vigor de potência na interface com uma realidade cibernética onde existimos com a liberdade incorpórea para realizar a condição humana uma vivência mediada por próteses corporais e scripts de atuação para atos programados para uma determinada ação. Estas são instruções criadas para interagir com as sensações de plasticidade gráfico-visual em uma expectativa maquinal de desejo de prolongamento e renovação da conexão. As próteses, os apetrechos  não humanos da tecnociencia, marcam uma extensão  das condições corporais e o script é  a trilha lógica para a configuração da interatuação homem-máquina.

A virtualidade na potencialidade dos artefatos digitais é o meio ambiente de uma sociedade em que anexamos esses mecanismos corporais que se agregam como prolongamentos do corpo e são necessários para a  memória expandida da disponibilidade online para acessar “a informação do mundo”.  Anexamos  vários  gadgets de conexão fixa ou móvel e imediata, uma prova tangível da vivência do instante em tempo real turvando em brumas o passado e difusas imagens de  futuro. Vivendo no presente dos upgrades e das novas versões,  o futuro é cada vez mais atual. A vaguidade de um tempo porvir é um  imperativo às cadeias do pensamento pela sofreguidão de uma velocidade online que traz uma perspectiva da incerteza para a coerência de um “tempo estendido” onde coabitam presente, passado e futuro.

Com a entrada da tecnociencia em nossa convivência cotidiana, cada vez mais vivemos a condição de uma existência sem a necessidade de uma presença do corpo físico. O novo corpo é  aquele com as próteses de aumentação e  a  intencional direção para realizar ações demarcadas em script. Ficamos alforriados do entreolhar, do gesto, do toque, da sensibilidade de uma linguagem corporal e dos trejeitos como forma de comunicação.

Com a integração ao mundo real de elementos virtuais  associados ao mundo das máquinas habitamos uma composição cênica com uma vivência mediada pelo computador, com um ambiente “real” que é criado através de dispositivos tecnológicos. É uma realidade misturada combinando o real com o virtual induzindo os sentidos  a um imaginário que nos é dado por “default”. Este  novo corpo aumentado tecnologicamente,  como que apaga memórias passadas e estéticas de futuro tal a força do presente na interface visual.

Aldo de A Barreto

* Usamos o termo não-humanos na concepção da teoria ator/rede de Bruno Latour e para indicar como “não-humanos” os artefatos da tecnociencia como equipamentos e instrumentos, scripts de programação de computador, etc.. Os não-humanos permitem a produção de novas situações, participam da produção de problemas, bem como da produção de novas possibilidades de lidar com eles. (Latour, Bruno; Woolgar, Steve. 1989. La Vie de Laboratoire: La Production des Faits Scientifiques. Paris. Ed. Pandore)

O Datagramazero quer contar historias com juventude na estrutura da narrativa

juventude

O DGZ nasceu e mantem o desejo de operar com palavras e outras mídias no contexto de uma nova interface de da escrita e da leitura. Dai propositalmente mantemos um visual em que se destacam palavras e escrituras mediáticas.A beleza estética opera em prol de uma mensagem que a revista quer passar.

A estrutura de uma narrativa é denunciada pelo seu “grammé”, que é o traço de uma escrita com intenção em se aproximar de um linguajar caracteriado pelas suas condições de apresentar no mesmo formato uma possibilidade de explanação com vária mídias. A escritura quando intertextual é de alguma forma, externa à linguagem, pois agrega outros sentidos ao entendimento e não se prende unicamente ao seguimento do código comum como na opção linear de um texto de enunciação continua e estáticamente destinada pelo seu formato fixo.

O traço de uma escrita ou o seu “grammé”, como o chama Jacques Derrida,vem do grego gramma, (letra, escritura), não é uma substância presente aqui e agora (não se pode ver, sentir ou ouvir a diferença): o traço da escrita é a diferença em si, isto é, diferença espacial e a diferença temporal (como um adiamento do significado). Essa estrutura, ou melhor, esse princípio estruturador, é comum a um sistema complexo envolvendo o registro e a transferência da informação. Assim DATA-GRAMA-ZERO seria por analogia o “marco zero de uma escrita”; e isso precisa estar denunciado.também, em sua estética.

Em Informática,ainda, DATAGRAMA é, tambem, uma entidade de dados, auto-contida, que possui suficiente informação para ser conduzida do computador de origem ao computador de destino, sem depender nem das trocas anteriores (comunicação?) entre aqueles pontos, nem da rede transportadora. DATAGRAMAS são unidades de dados que se recebe quando faz o download de um arquivo para outra memória. O primeiro destes blocos de dados vem com informações sobre os blocos subsequentes , sua estruturação, tamanho, origem, etc. e se chama Datagrama ZERO.

Asssim o visual do Datagrama tem a ver com toda uma condição da mensagem na web. Ou pelo menos penso que tem ; )

http://www.dgz.org.br/

foto de marwane pallas

AAB

O valor dos artigos que geram novos artigos

individualization
A imodéstia em publicar esta postagem esta relacionada a necessidade de mostar a condição específica de um pesquisador e sua produção intelectual,  o que nem sempre é realizado pela burocracia organizada de sua área.

Nesta semana, o serviço de controle de citações do Google me informa que atingi para os meus 58 artigos cadastrados no Google Academics 1024 citações o que se traduz com um indice de impacto do pesquisador igual a 15 (h-index)

O indice de impacto  “índice h” é um índice que tenta medir o impacto da obra publicada pelo autor. Assim, o índice h reflete tanto o número de publicações como o número de citações por publicação. Uma pessoa com um “índice h” de 15 publicou artigos que foram citados por outros trabalhos pelo menos 15 vezes, na média, de todos os seus seus artigos produzidos. Um índice h entre 15 a 20 indica segundo a explanação da wikepedia: um professor titular na sua área de conhecimento com participação como membro (equivalente) de uma grande sociedade americana de pesquisa.

Esta  já é a forma de avaliação da produtividade e competência adotado para pesquisadores e docentes nos EUA  e Europa  e   certamente será cada vez mais considerada no Brasil. A simples publicação de um texto não  indica necessariamente a sua leitura. De pouco vale um artigo pontuado, pelo procedimentos de contagem  quantitativa  se este artigo não gerou e não irá gerar nunca uma nova reflexão escrita . Se um texto  nada  inspirou em seu campo e nunca foi citado em bibliografia superveniente de seus pares fica dificil valorizar esta narrativa muda.

A condição de  avaliar  a quantidade como produtividade do pesquisador, ponderada por  publicação em periódicos qualis-quente,  distorce toda a questão do valor da reflexão e da pesquisa criadora pela sua não sua convivência com a citação ampliadora na rede da informação e conhecimento. Estas contagens hesitantes têm, contudo, prestigiado  artigos silenciosos no sistema de comunicação em ciência e tecnologia, pois encarecem só  a quantidade produzida. Os tais periódicos quentes são decididos em “comissão”;  a citação confere a um artigo um certificado de qualidade que valoriza a narrativa pela atração de outros receptores-autores reais em nova geração de conhecimento.

“Assim se recicla o ser total da escrita: um texto é feito de escritas múltiplas, saídas de várias culturas e que entram  em diálogo umas com as outras…,  mas há um lugar em que esta multiplicidade se reúne, e esse lugar não é o autor é o leitor: no leitor está o espaço exato em que se inscrevem, sem que nada se perca, todas as citações de uma escrita; a unidade do texto não está em sua origem, mas no seu destino e este destino não pode ser pessoal” (Barthes, O rumor da língua)

veja meus artigos mais citados em:

http://scholar.google.com.br/citations?user=TwXayDgAAAAJ&hl=en

citing

Por causa da multidão …

Viver

É para mim, duvidar,

Desvairar,

Interrogar,

Procurar,

E acenar a uns meus amigos

Que sinto perto, e não vejo

Por causa da multidão …

(José Iório)