Em algum lugar do passado

Em algum lugar do passado

Em 1968 terminei o curso de economia na, então, Faculdade de Economia da Universidade do Brasil no Rio de Janeiro. Rápido descobri que havia cerca de sete cursos de economia  no Rio formando cerca de 300 economistas por ano e a necessidade do Brasil para esta especialidade era, na época, algo como 50 profissionais.

Desemprego certo eu fui procurar me especializar na Inglaterra unindo a necessidade ao sonho. Londres era na década de 60 o centro do mundo, os Beatles, King’s Road e Carnaby Street; a cidade juntava a intelectualidade, a música e a badalação. Me fui com recursos próprios juntados de economias e acordos de FGTS,  que me dariam para ficar por dezoito meses estudando na Inglaterra. Londres foi uma paixão a primeira vista; os londrinos dizem “se você está cansado de Londres desista; você esta cansado da vida.” mesmo não sendo a cidade que nunca dorme, pois a maioria se recolhe as 11 da noite.

 

Preferi para morar uma pobreza centralizada do que manter padrões da vida caseira trazidas de cá do Brasil,pois para isso teria que pegar a linha do trem de subúrbio. Fui morar em “Chelsea,  off King’s Road” a uma quadra do Rio Tamisa. Mas, morava em um bedsitter algo como um conjugado, com cama, pia e algum instrumental de fogo para realizar pequenas cozinhas. O bedsitter tinha banheiros tímidos, coletivos e camuflados que ficavam, nas suas especialidades, três andares acima ou abaixo do meu bedsitter. Tudo isso em uma casa de cerca de 200 a 500 anos, onde antes morava uma única e nobre família. Subir ou descer  três andares,  em uma noite de inverno londrino , as três da madrugada para se  aliviar era barra pesada.

 

Muito cedo percebi que não daria para fazer um mestrado em economia. Minha formação brasileira exigia um nivelamento e tudo não ficaria por menos que dois anos e meio. Longo tempo para o meu pouco dinheiro. Fui, então, aprender inglês. Enquanto isso, todo o domingo lia o Sunday Times que tinha um caderno sobre educação e onde todas as faculdades do Reino Unido publicavam sua oferta de vagas para os mais diferentes cursos de pósgraduação.

 

Li então sobre um curso de ciência da informação, oferecido no centro de Londres, pela The City University, antes o Northampton College da Universidade de Londres,  especializado em engenharia de aviões supersônicos, foguetes etc.. Era, então,  1968 não se sabia muito bem o que era ciência da informação no mundo todo. Pensei ser um ramo da comunicação social, coisa muito em moda depois da segunda guerra. Fiz uma aplicação pedindo para para fazer o curso de mestrado e fui ter uma entrevista com Jason Farradane, o seu coordenador. Farradane viu que eu não sabia muito do que se tratava, mas se encantou em ter um economista como aluno pagante e me aceitou e foi meu orientador, com a condição de que minha dissertação final fosse sobre ciência da informação e economia 1.

 

A ciência da informação estava começando a ser definida como uma área acadêmica. A reunião da Royal Society de Londres sobre informação, em 1948, acabava de decidir mais os problemas que os rumos do novo campo. Nos anos cinquenta haviam começado as Reuniões do “Classification Research Group” e o próprio curso de ciência da informação da The City University. Participei em 1969 de algumas reuniões das Reuniões do grupo de classificação, com meu orientador ferrenho defensor de um esquema de classificação chamado “relational Indexing”. As discussões eram acaloradas e com gente de autoridade da recente área como Robert Fairthone, Karin Spack Jones,  John. Bernal. A época era a da gestão da informação.

 

Onde o foco das reflexões estava no controle da informação e assim foi até cerca de 1990 quando veio  popularização da web e o inicio de um novo regime de informação. Todos os planos, programas discursos de informação feitos antes de 1990 perderam o sentido e forma derrubados pela Internet e sua configuração gráfica a WEB.

 

Para mim tudo ficou inesquecível nesta época. Estudava, quando não estava na The City, na Aslib – Association for Special Libraries que ficava perto de minha casa. Frequentava a torrinha do Royal Festival Hall e do Covent Garden e não perdia concertos, um por dia, por 90 dias do “Promenade Concerts” no Royal Albert Hall,  o monumento de amor da Rainha Vitória ao marido morto. Alguns destas exibições no “Proms”o compositor da obra executada estava na plateia , para receber os aplausos, como foi o caso de Benjamin Britten quando executaram sua Sinfonia da Requiem. Eu tinha, então, 26 anos e estava me equipando sem saber para ser uma fonte de informação primaria hoje. A ciência da informação lidava com a explosão da informação liberada no pós-guerra  e o  artigo de Vannevar Bush no Atlantic Mountly, as preocupações da Classification Reserach Group denotam a primeira orientação da nova área.  Em 1957 Cyril Cleverdon começou no Cranfield Institute of Technology em Bedford perto de Londres a usar o computador para estudar e comparar a eficácia das linguagens de indexação com o fim de organizar conjuntos de documentos. Definiu, assim, matematicamente o conceito de relevância e de precisão. Apresentava seus resultados à comunidade da área em uma reunião chamada de “Cranfield Conferences”, foram sete ao todo  de 1960 até 1970. As conferências eram um “happening” da área no mundo reunindo todas as pessoas importantes que pretendiam lidar com a informação usando o melhor esquema de indexação para seus textos.

 

Apesar das grandes realizações para a área da informação, as as medição do desempenho realizados naquela época são quase totalmente desconhecidas hoje. O que se sabe sobre as variáveis influenciando as avaliações de relevância em condições experimentais ainda é muito pouco, bem como a compreensão dos aspectos psicológicos e situacionais do usuário ao julgar a relevância.

 

Atualmente, estando a informação disponível em texto completo na rede e com um novo tipo de escrita, o documento  aberto, que está sempre em se fazendo, estas medidas tem que ser revistas.

 

A sétima conferencia de Cranfield foi a última. Eu não poderia deixar de ir estando lá. Inscrevi-me por telefone da biblioteca da ASLIB após um dia de estudo, que chamávamos de “trabalho”. O evento foi memorável para mim,inclusive o bride a Rainha após o  jantar.

Logo depois disso terminei o meu mestrado, retornei e fui trabalhar na PUC do Rio de Janeiro. Cheguei ao Rio em um anoitecer de verão e o navio o “Eugenio C” antes de aportar parou de frente para o Cristo Redentor na Baia de Guanabara iluminada o que foi uma visão de enorme emoção. Mas foi ali, naquele instante, que percebi, definitivamente, que minha terra seria, também, uma Ilha e Elizabeth minha Rainha para sempre.

 

Já desembarquei sonhando em voltar o que consegui, algum tempo depois para ficar mais quatro anos e fazer o doutorado em ciência da informação na mesma The City University. Voltei  para vivenciar a segunda fase da área. No doutorado um de meus professores foi Nick Belkin,  um dos que introduziu o cognitivismo na ciência da Informação. O foco passava a ser o usuário Mas, isso já é uma outra história.

 

 

Notas:

 

[1] Minha dissertação de mestrado foi sobre “ A troca de informação econômica e comercial entre o Reino Unido e o Brasil” – nos anos 1950 o Reino Unido havia perdido a oportunidade de participar da fabricação de carros populares no Brasil por falta de informação econômica sobre este país.

 

[2] texto revisto  do publicado em Colunas do DataGramaZero – Revista de Informação – v.11   n.2 abr/10

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Aldo de Albuquerque Barreto

aldobar@globo.com

 

Doutor em Ciência da Informação, The City University, Londres, Inglaterra. Pesquisador Sênior do CNPq.

 

 

 

 

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