Além da aflição do dia

palavra

Quando enfatizo que o meio é a mensagem e vai muito além do conteúdo, não estou indicando que o conteúdo não tem papel no processo – mas indicando que o conteúdo tem um papel diferente e sem importância diz Marshall McLuhan (1969) em sua famosa entrevista a Revista Playboy. * E continua: “Mesmo se Hitler tivesse pronunciado aulas de Botânica no meio rádio algum político usaria o meio para reunir os alemães e iniciar as características negras que criou o fascismo europeu dos anos 20 e 30.”

E continua: “Quando colocamos a importância no conteúdo e não no “meio, perdemos toda a chance de perceber e influenciar o homem“. Passaram-se quase 50 anos após estas declarações hoje não é mais verdadeira, pois há mais liberdade na produção dos conteúdos livres, mesmo em um meio forte como a Internet é o conteúdo que domina todas as ações subsequentes ao processo de troca de enunciados, pois só assim se determina a relação colaborativa e o processo de união estável entre gerador e receptor.

Não existe mais o determinismo físico de que diferentes estruturas físicas desencadeavam mecanismos de compreensão de significados. Se para McLuhan, o meio e sua tecnologia se estabelece como a forma comunicativa e determina conteúdo da comunicação isso não acontece mais na liberdade das vozes de um formato aberto da ação de comunicação.

O receptor hoje tem acesso às “fontes” e lá, estabelece um dialogo explicito e de seu interesse sem intermediários fatais e seus universos particulares de linguagem. O receptor com acesso as fontes de informação arranja seus dados de uma maneira subjetivamente individualizada por suas preferências, independente dos canais formais de uma comunicação direcionadora e formadora de uma opinião padronizada.

O que falamos e escrevemos é sempre é para registro junto a nossas testemunhas. Nossa vida ativa acontece na condição testemunhal de visibilidade de nossos enunciados. No mundo da visibilidade nossa atuação se relaciona a esta condição de convencer e não decepcionar as testemunhas que confirmam o nosso caminhar colocando marcos no caminho de nossa aventura com as palavras.

A informação não existe sem expectadores, sem uma plateia, um palco e aplausos e a memória que se forma depende desta validação. Os estoques de memória existem, enquanto existirem as testemunhas e as testemunhas das testemunhas. A nossa escrita cria, assim, um domicílio documental de memória ao qual podemos sempre recorrer regressando para uma acolhida de atestação. As nossas narrativas passadas mantêm a nossa memória iluminada no presente.

Com a entrada da realidade virtual em nossa convivência cotidiana, cada vez mais vivemos a condição de uma existência sem a necessidade de uma presença física testemunhal. Ficamos alforriados do entreolhar, do gesto, do toque e a sensualidade da linguagem do corpo. Códigos corpóreos delimitam ou ampliam os enunciados na expectativa da presença exercida. Nas relações face-a-face fica difícil de ser engendrado um estado de espírito oculto e a força do olhar desnuda a máscara de um dialogo onde o ritmo da voz pode abrigar, ocasionalmente, uma comunicação mal formada.

Há no viver dos cenários virtuais uma condição comportamental do “eu sou o espetáculo” em que além de convencer queremos encantar nossas testemunhas com a interpretação de nossa emoção com belo e o inusitadoao lançarmos mensagens aos nossos distantes escondidos na máscara da não presença.

Todos rejuvenescem no ciberespaço das convivências abrigadas e voltamos a uma adolescência querendo “como nos mostrar” com o nossa cena, o show do nosso eu, formando um “lego” relevante com a simplicidade de um pensamento oxigenado.

Mas há que cuidar da palavra na aflição do nosso comunicar: contam que Pitágoras foi o grande filósofo grego, responsável por desenvolvimentos na matemática, astronomia nunca deixou nada escrito – acredita-se que para preservar o seu pensamento. Sócrates e Buda nada deixaram escrito e muito se fala do que pensaram e disseram. Cristo pelo que sabemos escreveu uma única vez e poucas palavras na areia que o mar se encarregou de apagar. A escrita nas mãos de um incapaz é como a espada nas mãos de uma criança, dizia Santo Anselmo.

Aldo A Barreto
Final de junho 2015

*Entrevista de Marshall McLuhan (1969) a Revista Playboy
http://web.cs.ucdavis.edu/~rogaway/classes/188/spring07/mcluhan.pdf

Um comentário em “Além da aflição do dia

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