Os imateriais simbolicamente significantes

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Uma ponderação do filosofo Jean-François Lyotard sobre a estrutura e o fluxo da informação tomou forma explicita em uma exibição denominada “Les Immatériuax” que ocorreu durante 1984 e 1985 no Centro Georges Pompidou em Paris. Com um apelo a pós-modernidade ou a modernidade vivencial, a questão que se queria investigar era a modernidade digital que transformou os artefatos culturais imateriais e seu conteúdo. Há vinte e cinco anos atrás o pensamento inovador sobre os significados imateriais em sua base fixa e sua distribuição em fluxos surgiu em uma exibição de Paris, em 1985: “Les Immatériaux”. Os curadores da exibição foram Thierry Chaput e Jean-François Lyotard, que deu sustentação conceitual ao acontecimento.
O propósito de “Os Imateriais” foi trazer a inquietude com a fluidez da informação nas diferentes bases de inscrição. Isto em uma época em que o texto impresso era uma ideia dominante de um padrão de escrita, documento e leitura. No contexto da exibição o visitante era o único culpado pela construção do sentido. Pela primeira vez computadores forma trazidos para o espaço de uma exibição pública. A intenção era mostrar que naquela atualidade (1985) tudo era informação e que os sentidos estavam cada vez mais entrelaçados com a forma e a estrutura em que o conteúdo estava inserido.

Lyotard acreditava que a passagem de uma sociedade industrial para uma sociedade de informação teria efeitos profundos sobre o espírito humano. Presumido que as tecnologias da telecomunicação e da informática fossem capazes de assumir as tarefas mentais do armazenamento e processamento de dados desmaterializados – a relação do homem com a realidade mudaria radicalmente.  A exibição criou um protótipo para se observar fisicamente em uma instalação artística a diferenciação da linguagem em para divergentes tipos de estrutura e fluxo dos significados.

Por exemplo, o site ‘Nu vain’ (O corpo vaidoso) foi criado ela cenarista Martine Moinot e era composto de doze manequins assexuados; ouvia-se um som de fundo de uma passagem rítmica do filme de Joseph Losey, Monsieur Klein , sendo alternando com uma foto de um prisioneiro de um campo de concentração.

À medida que o visitante entrasse neste site ouviria a voz do poeta e dramaturgo Antonin Artaud recitando “Pour en fini avec le jugement de Dieu” (“Para acabar com o Julgamento de Deus”).

Assim, guiado ou, mais precisamente, desguiado, através de uma luz cadente, percorria-se a exposição ora pela trilha sonora ora o visitante isolado fluía de um site para novo site nas várias vertentes da mostra onde a estrutura da informação se diferenciava ou a informação era mostrada em várias estruturas ao mesmo tempo. Em seu caminhar o receptor era exposto a distintas estruturas de significação em diferentes mídias e deixava relatado em um arquivo de computador a sua interpretação das narrativas imateriais ao qual tinha sido exposto.

Cada visitante registrava sua sensação e percepção da informação recebida em cada um dos diferentes “sites” da exibição, pois havia um terminal de computador em cada site visitado. Em 1986 um compreensivo relatório sobre os resultados colhidos em “Les Immateriaux” foi publicado pela socióloga Nathalie Heinich . Em 2009 a Tate Gallery de Londres fez uma revisão da exposição onde que Nathalie Heinich apresentou um esclarecedor artigo do qual ressaltamos o trecho:

“Sobre a exposição em si, a principal conclusão da minha pesquisa foi à variedade dramática e a instabilidade das percepções e reações, de um visitante para outro e até, por vezes, de um momento para o outro para o mesmo visitante.” Isto não foi apenas o resultado de mal-entendidos. Foi principalmente o resultado de um «efeito fronteira» ao deparar-se com o novo, em consequência da inovação na apresentação da informação. A dificuldade de formular uma opinião firme sobre “o que se deve dizer sobre isso” é algo constante diante do novo.

O Modo da Informação
A informação tem variada tipologia. Uma narrativa é um conjunto de expressões inscritas em uma base na multiplicidade de configurações de uma língua. Constitui um todo unificado passível de ser distribuído por um canal de transferência.

Uma alocução de significação é uma elaboração do autor, mas quando distribuída como narrativa associa em sua amplitude: a leitura, o receptor e uma interpretação ou reconstrução daquele discurso. O significado é um differend que vem de escritas que entram em diálogo; entram em contestação e se acumulam no leitor. No receptor está o ambiente exato em que se inscrevem todas as referências de uma interface que se transforma em idioma; a unidade do texto não está em sua origem, mas no seu destino e este destino não pode ser particularmente descrito: o leitor é um homem sem história, sem biografia, sem psicologia .

A passagem dos enunciados lineares para a de redes digitais produziu uma desfamiliaziração temática e um adiamento do significado que ficou espatifado nas trilhas de passagem dos textos interligados. No mundo digital sem centro definido configura-se uma adaptação na relação do receptor com a apreensão do conhecimento. O texto construído em emaranhados traz uma vinculação de cadeias imprevisíveis sem qualquer qualificação de famílias com temática hierárquica.

Conhecer, então, é como se apropriar de enunciados alinhavados por textos que se cruzam. Uma bricolagem que é individualizada para cada receptor. Uma nova estrutura e um novo fluxo de informação se estabelecem  que é em tudo muito semelhante à experiência dos Imateriais em Paris de 1985.

A escrita em seus contextos de existência admite a liberdade ao lidar com o texto livre das amarras da composição única. O código linguístico será sempre comum e permanece como pano de fundo, como um elemento silencioso e razoavelmente compulsório. Os enunciados são contingentes com o contexto do outro e acontecem em uma interface que é só uma mediação gráfica desta linguagem comum.

É preciso então estabelecer a diferença entre a linguagem estruturadora e a grafia volátil e mutável no dialogo dos enunciados. A escrita em cada um de seus formatos é uma tecnologia que se espelha, mas não se subordina ao código de lenta mudança. Para as estruturas em fluxo  existe um contínuo colóquio de enunciados entre geradores e receptores. Os envolvidos possuem afinidade em seus intentos o “differend” de uma língua em construção. Os jogos de informação acontecem com estruturas que não carecem de visibilidade, pois existem não pela presença básica, mas por uma visibilidade potencial de estar ali. Pois, um registro de significado é formado pelas inscrições que uma linguagem fixou em um determinado e suporte; uma agregação que compõe o todo significante. A percepção neste sentido envolve emoção e sensação que pode vir de um discurso oral, uma peça musical, uma imagem um corpo em movimento ou qualquer representação artística.

Convivemos intensamente com estruturas diferenciadas para os diferentes conteúdos, onde a sedução para o significado é  uma viagem por narrativas linkadas; a escritura traz um novo modelo para a percepção e para no imaginário da leitura. As bases das narrativas foram virtualizadas. Estamos convivendo com um novo padrão de inteligência  que interage com novos conjuntos simbólicos.

O imaginário adia o significado dos enunciados até que se percorram todos os caminhos, todas as conexões, todas as metáforas. Palavras e frases têm uma fissura para deixar passar significantes libertados de uma relação biunívoca. Uma possibilidade do imaginário de ir além de uma representação privilegiada para um signo atribuído. O entendimento na tecnologia atual das trocas de enunciados  é imediato . Persiste, contudo o antigo “surrogate”  da informação e do conhecimento.     As condições modais de uma mensagem e as suas vertentes de transferência influenciam a percepção do significado. Artefatos imateriais criados por um gerador para produzir sentido em outro são interiorizados de acordo com as possibilidades de elaboração do pensamento  dentro de determinado fluxo de conhecimento.  A exibição francesa de 1985 parece ter demonstrado este ponto. Ela não foi uma experiência só sobre informação ou sobre arte ou informação sobre arte; foi muito mais que isso: uma imbricação entre pessoas e seus produtos imateriais; emoção e percepção, conhecimento e saber. A intenção desta narrativa foi, também, documentar o esquecido evento tão importante para o lidar atual com a informação e seus conteúdos.

(AAB)
Les Immateriaux” – Nathalie Heinich   http://monoskop.org/Les_Immat%C3%A9riaux
“Imateriais pode ser lido completo em    http://www.dgz.org.br/abr10/Art_02.htm

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