A responsabilidade do coautor

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No atual contexto de produtividade intelectual associada a salário e avaliação, como forma de impulsionar a produção científica institucional,  de programas de pós-graduação, é insinuado que alunos publiquem em coautoria com seus orientadores. A questão é delicada, pois não se considera coautor quem simplesmente auxiliou o autor na produção da obra literária, artística ou científica, revendo-a, atualizando-a ou dirigindo sua edição e apresentação por qualquer meio.

Desse modo, as monografias, dissertações ou teses têm uma característica dialogal, de conjunção de dois fluxos intelectuais, sendo um o autor e o outro o orientador coadjuvante, que apenas aconselha, orienta e dirige o aluno. A função do orientador é trazer à tona novas ideias, achados, ensinamentos que o fluxo criativo do orientando produzirá a seu modo. O orientador não escreve, não redige o conteúdo do trabalho; se agisse dessa maneira, estaria violando as regras da pós-graduação.

Assim, devido as condições de indução para uma maior produção científicas desejadas pelas agências reguladoras e de fomento da pós-graduação,  o autor legítimo  por querer maior visibilidade para o seu texto se acredita, também, impelido institucionalmente a ajuntar na autoria de seu texto docentes do programa. Desta coautoria, de fato ou de prestigio, participam docentes que contudo não realizaram efetivamente a operacionalização da escrita e diagramação do conteúdo  do documento que, contudo, levará o seu nome na cadeia da comunicação cientifica. Assim o aluno, um iniciante, na vida, na autoria e no seu relacionamento com a escrita comete, por vezes, fortes equívocos com a gramatica, a pontuação e a sintaxe e este material chega aos editores para publicação, e por vezes é publicado, como tendo a anuência de todos os autores: discentes e docentes.

A  coautoria na rede acirra as associações emotivas pela  interação e  traz  possibilidades de heranças  entrelaçadas de interesses individuais e corporativos. Daí o receio de que, boa margem das coautorias seja um desejo do aluno procurando reconhecimento e prestigio  ao associar docentes ao seu trabalho. Considerando o atual crescimento do  número de autores por texto e o tamanho   desta família de autores sem afetividade temática há um temor de que isso desgoverne a qualidade textual .

Esta múltipla  autoria prejudicada e prejudicial passa a percorrer os fluxos de comunicação e  por alguns anos subsiste nas cadeias de citações. Entendo  que a geração de ideais nas ciências humanas e sociais possui um discurso de criação  personalizado. Isto torna muito difícil indicar pela estrutura do artigo qual foi a participação de cada autor. Diferente das áreas de exatas onde na bancada do laboratório  pode-se qualificar a participação de cada pessoa para o processo que resultará na escrita.

A coautoria, ampliada na web, mostra as heranças entrelaçadas destes  interesses individuais e corporativos. Daí o receio de que uma margem destes artigos sejam gerados principalmente para garantir uma produtividade conciliadora com as agência de controle e o fomento das pesquisas.  Isto coloca um risco para as avaliações da produtividade em ciência e tecnologia e, também, para os pesquisadores/docentes que passam a figurar nesta cadeia de produtividade intelectual com artigos que pelas questões colocadas acima não mereceriam ter a sua autoria.

Aldo de A Barreto

2014

Leitura aconselhada:

Entre fetichismo e sobrevivência: o artigo científico é uma mercadoria acadêmica?

http://goo.gl/9Qz14z

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