A coerência das fontes de informação

leaves away

 

Devemos ir contentes, de um lugar a outro,
Sem apegar-nos a nenhum como a uma pátria
Não nos quer atados, o espírito do mundo
Quer que cresçamos subindo 
andar por andar…

(Herman Hesse, Andares)

 

Marshall McLuhan diz em 1969: “quando enfatizo que o meio é a mensagem-  muito mais que o conteúdo e não estou indicando que o conteúdo não tem um papel no processo de comunicação  – mas querendo indicar que o conteúdo tem um papel diferente.   E continua: “se Hitler tivesse pronunciado aulas de Botânica pelo rádio, o convencimento político do meio iria reunir os alemães e iniciar as características negras da natureza tribal que criou o fascismo europeu dos anos 20 e 30.[1]

E continua: “Quando colocamos toda a importância no conteúdo e não no “meio”  perdemos toda a chance de influenciar o receptor ” dizia McLuhan.  Passaram-se 44 anos  desde esta palavras  e hoje isso não seria mais verdade com o advento e a liberdade do meio múltiplo como a Internet, onde é o conteúdo que domina todas as ações subsequentes no processo de emitir e  trocar enunciados.

Não existe mais um determinismo físico nas estruturas perceptivas de compreensão desencadeando mecanismos de  significados homogêneos. Se para McLuhan, o meio estabelece a forma comunicativa e determina o próprio conteúdo da comunicação isso com a era da liberdade das vozes  em um formato aberto da ação de comunicação digital. Temos hoje uma massa de mídia ao contrario de mídia de massa. Um universo de mídia de conexão imediata com o fato ou a fratura do cotidiano, em tempo real.

O receptor da informação  tem acesso próprio às “fontes” e lá, estabelece como um dialogo de seu interesse sem o monopólio dos intermediários fatais e seus universos particulares de linguagem. O receptor com acesso as fontes de informação arranja dados de uma maneira subjetivamente individualizada por sua preferência e escala de valor, independente dos canais formais de uma comunicação direcionadora e formadora de opinião padronizada.

O meio não é mais a mensagem.  A interatividade  das conexões imediatas permite uma interatuação multitemporal com o espaço dos fatos, ideias e ocorrências  de um cotidiano global. Novos procedimentos  modificam a vivência e a convivência na sociedade, pela  condição de publicidade da informação, onde a aceitação da coisa nova é uma decisão de livre arbítrio. Mas, nem sempre foi assim; quando no domínio das fontes impressas em papel e tinta tinha-se uma quase ditadura da publicação impressa como fonte de verdade com dominância no ambiente de produção de textos para disseminação aos pares em sua área de conhecimento. Qualquer argumento poderia ter validade nesses textos se indicado e apoiado por uma fonte impressa de prestigio institucional e político.

A informação impressa no Brasil iniciou com a vinda  da Corte Portuguesa ao Rio de Janeiro.  A partir de 10 de setembro de 1808 o primeiro jornal foi impresso no Brasil, a Gazeta do Rio de Janeiro, que publicava notícias da Corte.  A ciência brasileira começou nas primeiras décadas do século XIX. Até então, o Brasil não tinha universidades, mídias impressas, bibliotecas e museus. D. João VI incentivou o desenvolvimento das ciências e das artes. Num período curto, entre 1808 e 1810, o Governo fundou a Academia Naval Real e a Academia Militar Real, a Biblioteca Nacional, os Jardins Botânicos Reais, a Escola de Cirurgia da Bahia e a Escola de Anatomia, Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro.

A imprensa no Brasil chegou desgarrada e  tardia, mas era real o que deu grande força e de aceitamento nas forma impressas de veicular a informação por aqui. No resto do mundo não foi muito diferente a majestade da importância l da fonte indicava sua pertinência merecedora de acreditamento. A ciência da informação, também, sofreu deste nepotismo da informação impressa. Por exemplo,  baseado em na predominância política e de valorização da verdade de alguns estudos fonte foi indicado o “começo da ciência da informação” como relacionado a uma pequena reunião realizada em 1961 e repetida em 1962 no Georgia Institute of Technology no Estado da Georgia, nos Estados Unidos da América.

Esta apresentação chamou-se “Conferences on training science information specialists, october 12-13, 1961 [and] April 12-13, 1962”.  Agregou um total de cerca de 60 pessoas, nos dois anos de sua realização. A maioria dos participantes foram:  docentes e bibliotecários da própria universidade americana sede do evento. Esta reunião tratou, particularmente, do treinamento de especialistas da informação e unicamente no contexto dos EUA é o que revela as parcas 100 páginas de seus Anais.

Mas, muita confusão se faz com esta Reunião e sua e sua generalização para o resto do mundo devido à fonte que a divulgou. Alguns autores recorrendo a esta fonte davam a esta reunião como início da área de ciência da informação em termos mundiais enquanto sua intenção e atuação eram restritas a educação e basicamente nos EUA.

A divulgação ampliada desta Reunião regional  ocorreu devido a uma outra fonte impressa de grande prestigio a publicação denominada ARIST – The Annual Review of Information Science and Technology produzida pela American Society for Information Science & Technology (ASIST) com grande poder de convencimento nos EUA e dai para o resto do mundo dependente intelectualmente como era a ciência da informação no Brasil.  Estas séries anuais do ARIST iniciadas em 1966 com Carlos A. Cuadra queriam revisar os aspectos importantes do desenvolvimento da área  nos anos anteriores de cada veiculação. Contudo, devido à instituição de seu patrocínio e a sua esfera de edição havia um considerável tendência para observar o desenvolvimento da área acontecido nos EUA e generalizá-lo para o resto do mundo. Tal acontecia pela força política da publicação que  atuou com mais intensidade nas décadas de 1960, 70, 80. Muitas publicações e estudos que utilizaram o ARIST como seu corpus de suas pesquisa,  reproduziram uma visão parcial da área, acreditando-a como universal.  [2]

A ciência da informação e os  especialistas da informação tiveram acesso ao computador a partir do final dos anos  1980, quando o custo da memória digital baixou e permitiu o processamento de textos em linguagem natural. A entrada  no uso da informação digital ajuda a esclarecer fontes com controvérsias editoriais malformadas como a relatada acima.

Com a internet socializada a partir dos anos noventa  “as fontes”  fortes ou quentes passaram a ser comparadas  e questionadas online;  a sua condição de qualidade, veracidade e relevância  passou a ser um questão de ponderação individual no mundo das conexões imediatas

(AAB)

[1] Marshall McLuhan  entrevista a Revista Playboy em 1966 http://entrevista-mcluhan.wikispaces.com/

[2] toda esta parte esta referenciada em  “Uma quase história da ciência da informação” de Aldo de A Barreto em http://www.dgz.org.br/abr08/Art_01.htm

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