Da inovação de Gutenberg aos discursos de uma aturdida ave

-papagaios

Johannes Gutenberg foi um inventor e gráfico alemão. Sua invenção do tipo móvel para impressão começou a revolução da imprensa e é considerado o evento mais importante do período moderno. Teve um papel fundamental no desenvolvimento da renascença e na revolução científica e lançou as bases materiais para a uma economia baseada no conhecimento a partir de conteúdos. Gutenberg foi o primeiro no mundo a usar a impressão por tipos móveis e a prensa móvel por volta de 1439. Sua invenção foi  uma combinação de elementos em um sistema prático que permitiu aprimorar a produção de narrativas impressas de maneira rentável para gráficas e leitores.

As inovações tecnológicas que Gutenberg desenvolveu foram além da ideia do tipo móvel. Ele combinou  uma série de tecnologias e inovações de diferentes áreas e é isso que tornou o seu trabalho tão poderoso. Usou desenvolvimentos metalúrgicos para criar um novo tipo de metal,  que não só tinha uma aparência consistente, mas que podia ser produzido facilmente permitindo imprimir páginas inteiras  de uma só vez. Ele usou inovações químicas para criar uma tinta nunca antes usada na impressão. Gutenberg explorou o conceito de divisão do trabalho usando uma equipe de trabalhadores para criar livros a um ritmo nunca visto na história da impressão. Gutenberg  juntou as coisas certas pela primeira vez. Usou seu estoque mental de conhecimento para agregar por “trilhas associativas” sua criatividade. [1]

Após a invenção da imprensa, Victor Hugo no século 15, em seu romance “Nossa Senhora de Paris”, narrou a história do padre Claude Frollo:  que olhava tristonho para as torres da sua catedral. Uma catedral medieval era, em seu tempo,  uma espécie de programa de televisão ao vivo. Um esplendor para festejar a esfera pública, que agregava uma comunidade com confiança permanente e imitável na vivência  pública, onde se transmitia às pessoas todo conhecimento  que era indispensável para a sua vida cotidiana, assim como,  para a sua salvação eterna.

Com a inovação na impressão da palavra na escrita, padre Frollo fitava um livro impresso  sobre a sua mesa e sussurra para si mesmo: este novo convívio de meu rebanho vai acabar com  minha catedral – o livro vai matar a catedral, pois o uso facilitado da palavra impressa irá criar um imaginário independente naquele espaço de agregação de pessoas,  símbolo de convívio da época. A impressão  facilitada da palavra escrita vai desviar as pessoas de seus valores mais importantes,  trazer a informação supérflua, permitir a franqueada interpretação das escrituras sagradas e um imaginário solto para a curiosidade insana. [2]

Mas já nos anos 60, Marshall McLuhan diz na sua “Galáxia de Gutenberg”, que a maneira linear de pensar acerbada pela invenção da imprensa estava para ser substituída por uma forma mais global de percepção e compreensão através de imagens  em vídeo e outros tipos de dispositivos eletrônicos. A supremacia do papel e tinta durou perto de seiscentos anos. Sempre houve um descompasso da grande oferta de conhecimento impresso e a pequena demanda de leitores. A disponibilidade, acesso privilegiado, assimilação e custo são os motivos, para ficar só com os determinantes  técnicos.  A impressão papel não têm mais  a força emblemática de  único transmissor de cultura. As novas formas de escrita e leitura estão diversificadas em forma e canal.

Quem não entende que a velocidade das atuais conexões imediatas é uma energia da informação digital arrisca não ver a emergência da mudança no formato dos artefatos de disseminação de conhecimento. Há na simultaneidade do ter “aqui-e-agora” uma negação do tempo sequencial. É uma a busca de interioridade para um tempo místico, um tempo no presente que é a celebração de todos os tempos. Um tempo em que há opções de enunciados em cada colocação de um discurso. A reflexão individual está ampliada pela facilidade de acesso às memórias eletrônicas e o receptor de fatos e ideias não aceita mais percorrer os caminhos mapeados dos universos formatados da ideologia sequencial da escrita impressa.

Esta  nova economia da informação influencia intensamente na tecnologia  do processo de produção dos conteúdos e seus modos de apresentação,  que deixarão  os impressos em papel  para serem quase totalmente conteúdos digitais. Isso acontecerá por uma razão econômica, técnica e lógica relacionada a custos e benefícios; uma decisão coerente para qualquer gerenciador que de outra forma estaria agindo irracionalmente. Uma decisão que nada tem a ver com a emotividade de querer acabar ou manter narrativas impressas em papel e tinta. Uma decisão mais de transferência potencial que de acervamento domiciliado. Quem desejar tratar unicamente de organizar os produtos impressos em papel, para colocá-los em estoques estáticos estará trabalhando no almoxarifado de objetos de informação e para isso só é necessário uma praticagem de fácil domínio. É uma ocupação paralela do processo de produção do conhecimento.

Assim o discurso sobre a estrutura das narrativas precisa ser revisto bem como o modo de guarda e disseminação dos conteúdos simbólicos. Há sobre isso um silêncio insensato nas áreas que lidam com a informação. O silencio do conhecimento é o silêncio da incomunicação, uma terrível desarmonia do discurso velho para uma realidade nova. Existe uma grave solenidade no momento atual que é de despedida do antigo e  acolhimento do novo. Uma nova  conjunção de “trilhas associativas” como o pensamento de Gutenberg ao criar a impressão móvel.

Mas o novo não apaga o caminho percorrido. A história de como tudo começou e aconteceu  é boa e merece ser contada. Ao domiciliar esta memória é preciso deslembrar um passado  que passou para conviver no futuro atual e transformado. Este deslembrar tem a necessidade rememorar para não esquecer a trajetória percorrida.

Contudo, apregoar o discurso antigo nos coloca na situação do papagaio sobrevivente da civilização perdida. Uma aturdida ave de cores brilhantes vivendo entre  ruínas e repetindo uma e outra vez longos discursos numa língua incompreensível.  Até não restar mais ninguém que o entenda.

Aldo de Albuquerque Barreto

[1] “The Half-life of Facts: Why Everything We Know Has an Expiration Date”, Samuel Arbesman.

[2] Umberto Eco,  Muito Além da Internet, palestra feita na Biblioteca de Alexandria em dezembro de 2003.

[3] Herbert Marshall McLuhan,  A Galáxia de Gutenberg: a formação do homem tipográfico.

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