Mudança estrutural dos humanos pela interação com os não humanos*

borg76

A crescente complexidade da existência do homem e da sua capacidade mental torna necessário lidar com as complicações de uma organização sensorial e motora complexa. Para as partes do corpo estão sendo esperadas funções cada vez mais técnicas, independente da sua qualidade de uso continuar a mesma. A mente humana deveria evoluir na companhia do corpo humano. Mas esse descompasso tem aumentado com a velocidade de acesso e distribuição do conhecimento no mundo dos formatos digitais. As ligações entre mente e corpo não marcham em harmonia. É nesse delicado equilíbrio que o futuro vai estar cheio de pontos perigosos e armadilhas de percurso.

Há um vigor de potência na interface com uma realidade cibernética onde existimos com a liberdade incorpórea para realizar a condição humana uma vivência mediada por próteses corporais e scripts de atuação para atos programados para uma determinada ação. Estas são instruções criadas para interagir com as sensações de plasticidade gráfico-visual em uma expectativa maquinal de desejo de prolongamento e renovação da conexão. As próteses, os apetrechos  não humanos da tecnociencia, marcam uma extensão  das condições corporais e o script é  a trilha lógica para a configuração da interatuação homem-máquina.

A virtualidade na potencialidade dos artefatos digitais é o meio ambiente de uma sociedade em que anexamos esses mecanismos corporais que se agregam como prolongamentos do corpo e são necessários para a  memória expandida da disponibilidade online para acessar “a informação do mundo”.  Anexamos  vários  gadgets de conexão fixa ou móvel e imediata, uma prova tangível da vivência do instante em tempo real turvando em brumas o passado e difusas imagens de  futuro. Vivendo no presente dos upgrades e das novas versões,  o futuro é cada vez mais atual. A vaguidade de um tempo porvir é um  imperativo às cadeias do pensamento pela sofreguidão de uma velocidade online que traz uma perspectiva da incerteza para a coerência de um “tempo estendido” onde coabitam presente, passado e futuro.

Com a entrada da tecnociencia em nossa convivência cotidiana, cada vez mais vivemos a condição de uma existência sem a necessidade de uma presença do corpo físico. O novo corpo é  aquele com as próteses de aumentação e  a  intencional direção para realizar ações demarcadas em script. Ficamos alforriados do entreolhar, do gesto, do toque, da sensibilidade de uma linguagem corporal e dos trejeitos como forma de comunicação.

Com a integração ao mundo real de elementos virtuais  associados ao mundo das máquinas habitamos uma composição cênica com uma vivência mediada pelo computador, com um ambiente “real” que é criado através de dispositivos tecnológicos. É uma realidade misturada combinando o real com o virtual induzindo os sentidos  a um imaginário que nos é dado por “default”. Este  novo corpo aumentado tecnologicamente,  como que apaga memórias passadas e estéticas de futuro tal a força do presente na interface visual.

Aldo de A Barreto

* Usamos o termo não-humanos na concepção da teoria ator/rede de Bruno Latour e para indicar como “não-humanos” os artefatos da tecnociencia como equipamentos e instrumentos, scripts de programação de computador, etc.. Os não-humanos permitem a produção de novas situações, participam da produção de problemas, bem como da produção de novas possibilidades de lidar com eles. (Latour, Bruno; Woolgar, Steve. 1989. La Vie de Laboratoire: La Production des Faits Scientifiques. Paris. Ed. Pandore)

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