Da produtividade de artigos mudos

muda

O que torna um indivíduo um autor é um conjunto de condições capaz de aproximar seu discurso a uma comunidade de leitores e estabelecer elos  entre eles no tempo e no espaço. Por isso, Foucault diz que as condições de identificação da autoria se constituem de forma constante e universal em todos os discursos [2]. Ao que Barthes acrescenta:  “O  autor é reputado o pai e proprietário de sua obra e ao respeitar o escrito e as intenções do autor  a sociedade postula uma relação do autor com a sua obra” [3]. Um autor produz para ser lido  e a quantidade e qualidade de sua reflexão narrada varia em cada indivíduo e seu contexto.

Uma questão relevante sobre a relação produtividade e competência é que não é possível medir-se competência através de métricas de produtividade quando os indivíduos são academicamente diferenciados. Quando os recursos de vivência, tempo, energia, densidade de produção científica e citações recebidas são diferentes devem ser usadas métricas que meçam competência e não métricas que meçam a produtividade do indivíduo no curto prazo do ano. De outro modo seria como medir a competência da altura de um grupo de indivíduos e depois concluir que os que ficaram nas primeiras posições são os mais gordos.

O contexto de produzir textos pode criar uma oferta de conteúdos publicados sem haver uma demanda de leitura para estes textos. A cultura de medição da produtividade do docente e pesquisador baseada na publicação de artigos em periódicos deturpa sua condição de competência;  o de seu passado histórico, sua liderança em pesquisa e a qualidade de professar disciplinas para discentes.  A produtividade destes artigos mudos não possui intenção de leitura , são veiculados para faturar pontos necessários  para manter um  “status quo” acadêmico e se aglomeram no fluxo dos artigos reais, pois grande partes destes textos são de múltipla autoria, embora só um autor tenha escrito a narrativa.

Resta avaliar o que tem mais produtividade: um artigo com grande citação contabilizada pós-publicação ou dez artigos produzidos e que jamais serão citados, talvez sequer lidos, formando por seu volume incomodo um entrave à comunicação cientifica,  na ânsia de angariar alguns pontos, em um somatório de documentos avaliados pela quantidade e não pela produtividade  de inspirar  leitores.

O cientista David Hamilton [5] escreveu alguns artigos sobre a  “não  citação”  em  ciência,   chegando a números surpreendentes nas estatísticas dos periódicos indexados pelo Institute for Scientific Information, Social Sciences Citation Index, e Arts & Humanities Citation Index. Os números relatados por Hamilton  mostram que 98 % dos artigos em artes e humanidades  permanecem sem qualquer citação, após  cinco anos de sua publicação nos EUA valendo para o resto do mundo, com pequenas variações.

O  que apura a categoria de um artigo na cadeia de eventos da comunicação científica é o seu valor de uso. Tal valor só pode ser atribuído se existe demanda para sua leitura. A simples oferta de um texto no fluxo da comunicação científica não cria necessariamente uma demanda de leitura. De pouco vale um artigo escrito e  muito bem pontuado, pela burocracia da produtividade instituída, se este artigo não gerou nova reflexão. Se não inspirou em nada  seu campo e nunca foi indicado em bibliografias supervenientes de seus pares e outros autores.  Como valorizar esta narrativa muda?

A privilegiada condição de contar a produtividade por publicação em periódicos quentes distorce toda a questão do valor da reflexão da pesquisa criadora e sua convivência com a citação ampliadora no fluxo de informação e conhecimento. Estas contagens hesitantes têm, contudo, prestigiado os artigos silenciosos para o sistema de comunicação em ciência e tecnologia.

Aldo de A Barreto

Editor  da Revista Datagramazero

Referências:

1  Fórum de Coordenadores de Programas de Pós-graduação de História, GT-Autoria da ANPUH em

www.anpuh.org/arquivo/download?ID_ARQUIVO=3975  visto em 29/11/2012

2  Foucault, Michel. A ordem do discurso, São Paulo, Loyola, 2007

3  Barthes, R., A obra do texto  em o Rumor da Língua, Edições 70, Lisboa 1984, Portugal

4   Ricoeur, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Editora da Unicamp, 2007

5  David P. Hamilton. “Research papers: who’s uncited now?,” Science, New Series,  251 (4989) (January 4):  25, (1991).

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