Não mate o mensageiro

Conta história que Dario III, rei da Pérsia, cometeu erros de estratégia de guerra quando derrotado por Alexandre, o Grande. Informado do possível infortúnio de suas estratégias por Charidemos, Dario III  mandou matá-lo. Também, Gengis  Khan, valorizava, mas temia os mensageiros, pois quando a mensagem trazida era  ruim, ou não poderia ser espalhada, Gengis  Khan não titubeava em matar o mensageiro na hora. Assim, surgiu o provérbio latino “Ne nuntium necare”: Não mate o mensageiro.

Talvez por isso nas armadilhas do publicitar as  reflexões sobre o não escrever  torna-se uma opção,  para que o pensamento não fique preso à perenidade da palavra testemunhal. Muitos nunca escreveram para preservar esta liberdade e fluidez temporal do pensamento.  Pitágoras foi um grande filósofo grego, responsável por desenvolvimentos na matemática, astronomia e na teoria da música Pitágoras nunca deixou nada escrito – acredita-se que para preservar o seu pensamento. Sócrates e Buda nada deixaram escritos,  mas muito se fala do que pensaram e disseram. Cristo pelo que sabemos escreveu uma única vez e poucas palavras que a areia se encarregou de apagar. Deixaram, contudo discípulos que se ocuparam de divulgar seus ditos e  feitos.

Isto, contudo, pode levar a desajustes tolos e sem sentido no relacionamento na convivência com as narrativas. Ou decisões extremas como tomou “Bartleby, o escrivão” de Melville, que em um determinado momento da vida deixou de escrever e por uma decisão de sua própria escolha “I have chosen not to write again” disse ele e nunca mais escreveu uma linha até morrer. A escrita nas mãos de um inábil é como a espada nas mãos de uma criança, diria Santo Anselmo. Melhor seria então não escrever e só citar ou só linkar?

Assim pode terminar um excessivo comunicador virtual: um estranho refugiado em seu próprio casulo pensando que de lá está discursando com convencimento,  quando esta postando para a cidade e para o mundo. Existe, também, hoje aquele que tem uma inapetência para escrever e se voltam contra a função do autor e de sua fruição para relatar fatos e ideias. Este é um problema comum na academia, onde para alguns o dever de narrar suas experiências e vivências com a ciência e a arte é uma parte da função exercida e não uma opção como a do escrivão de Melville. Para fugir desta obrigação investem e querem acabar com os mensageiros: o autor, o modo da escrita e seus meios de divulgação.

É preciso coragem para tornar um discurso público  expondo a narrativa, ao observador crítico e a todo o público, mas em defesa de uma posição, de uma causa, de uma ideia com o objetivo maior de  causar a potencialidade do conhecimento.

referências:

– imagem: Johnson County Library, Kansas, USA

– Bartleby, o escrivão de  Herman Melville.

– Histórias do Sr. Keuner de Bertolt Brecht.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: