A configuração mágica das palavras – Storytelling

 

Those who tell the stories rule society.   (Platão)

 

Um  “golem” é um ser artificial mítico associado à tradição simbólica do judaísmo, particularmente à cabala. Este ser pode ser trazido à vida através de um processo mágico de palavras.  O nome é uma derivação da palavra gelem que significa “matéria prima”.  O golem foi uma possível inspiração para outros seres criados artificialmente,  tal como os humanos artificialmente criados e dotados de poder sobrenatural  com que os quadrinhos povoam nossa cabeça. Eles são reforçados pela ideação e a capacidade de defender os mais fracos e injustiçados. Um conhecido golem é o moderno Frankenstein da obra de Mary Shelley.

Em vários contos, o golem se associa a escrita e a palavras mágicas que, quando contadas,  o tornam animado por escrever um dos nomes de Deus na sua testa, num papel colado ou numa placa de argila embaixo de sua língua. Coube ao rabino Judah Bezalel orientando-se pelas instruções existentes no Livro da Criação de Eleazar repetir de modo incansável, as palavras, com todas as combinações possíveis ali encontradas a fim de gerar a sua vida. O ser místico assim criado se associa a ideia de proteção e de defesa do indivíduo, do lugar e das ideias.

Foco, para reforçar o poder de contar de histórias,  um  lendário episódio em Praga, no ano de 1816, na velha Europa, numa certa noite de verão na Vila Diodati, à beira do lago Genebra, na Suíça, os poetas Lord Byron e Percy Shelley discutiam sobre a natureza da origem da vida e de que forma coisas inanimadas poderiam voltar à ter vida.

Na mesma sala, escutando-os atentamente, estava Mary Shelley, mulher de Percy. Mary Shelley pensando naquela conversa não dormiu aquela noite de junho de 1816 maquinando a sua própria história. Nela tornada um clássico do gênero, surgiu a figura do doutor Victor Frankenstein. O golem de Mary Shelley, a criação de uma escrita, que estruturada em palavras serviu para defendê-la do preconceito e da exclusão de sua época. Ela clama na voz de seu avatar um tratamento igualitário: “Terei de respeitar o homem quando ele me despreza.”. “Por toda parte vejo felicidade da qual estou irremediavelmente excluído”,  fala Victor Frankenstein.

Dar forma a coisa escrita, criada a partir de palavras narradas nos remete ao próprio conceito de informação e por consequência ao conhecimento da coisa. Ao criar mensagens escritas através das palavras cada um está contando parte de sua historia. Moldando o seu próprio Golem, para defender sua aspiração que no final sempre é: “tenho direito de ser igual quando a diferença me inferioriza. Tenho direito de ser diferente quando a igualdade me descaracteriza.” *   Escrever, então,  é como criar este refúgio protegido de memória domiciliada ao qual você pode sempre voltar em refúgio.

Contar histórias,  no formato digital,  ficou permitido ou estendido a qualquer pessoa. Para todos os trajetos de solidão ou convivência do indivíduo há um espaço fabuloso criado por uma configuração de palavras apropriadas onde o avatar encontra a sua pessoa.

Aldo de A. Barreto.

* (Boaventura de Souza Santos)

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