Leia e pense !

Leia e pense !

Uma entrevista de  Aldo A Barreto realizada no ano de 2002

Observação:  Esta entrevista foi realizada por e-mail no mês de Outubro de 2002, há dez anos atrás,  por Leonardo Melo  então estudante de Biblioteconomia da Universidade Federal Fluminense. Posteriormente foi citada por Rafael Capurro e outros autores, aparecendo referenciada  nas buscas dos browsers da internet, mas a entrevista em si desapareceu da web com a finalização do site que a hospedava [ http://www.leiaepense.kit.net%5D . Por esta razão disponibilizamos o documento neste blog, atendendo a quem procurava a referência. Vale notar que são reflexões recorrentes  para o ano de  2002 e que muitos dos temas abordados foram republicados depois em outros documentos que publicamos.

Leonardo Melo: Quais os obstáculos aos profissionais da informação que desejam dedicar-se à pesquisa em C.I. no Brasil? Apenas a ausência de políticas públicas de incentivo à pesquisa? Em que medida as condições de formação profissional, a partir da graduação, estabelecem limites ou favorecem o caminho da pesquisa na área?

ALDO BARRETO: Nesta contemporaneidade (fim e início de século) fica realçada a transitoriedade da realidade e mais ainda do setor de informação, que sofre influência direta de tecnologias intensas em inovação e em constante mutação. Estas tecnologias são derivadas da microeletrônica e da telecomunicação, com suas técnicas  correlatas de processos, insumos e equipamentos.

A Sociedade Brasileira de Informação se coloca nesta realidade emergente como um anseio do Estado e uma esperança da sociedade. Ao examinar esta situação observa-se, desde agora, dois posicionamentos que necessitam de um equilíbrio harmônico: o primeiro relacionado a uma infraestrutura técnica de modems, protocolos de transferência de dados e rede nacional de telecomunicações pretendendo ao ampliar o acesso às redes eletrônicas promover a democratização da informação. O segundo, não negando a necessidade do desenvolvimento de uma infraestrutura nacional de tecnologia de informação, procura refletir sobre o conteúdo da informação, as aplicações desta rede e como os significados associados á estes conteúdos poderão ser repassados à sociedade criando uma relação informação, conhecimento e desenvolvimento humano.

Este novo cenário de espaços desterritorializados privilegiará, ainda, parcerias e trabalhos cooperativos, associações nacionais e supranacionais. O profissional da informação quando executando suas práticas como suas pesquisas, pensa na fundamentação e explanação da área; este é um profissional em continua e constante mutação, precisando sempre e continuamente de novos conhecimentos.

“Eu só amo aqueles que sabem viver como que se extinguindo, porque são esses os que atravessam de um para o outro lado”.[i] As palavras citadas são uma referência de posicionamento para o trabalhar com a informação.  O profissional desta área se encontra, nesta atualidade como se em um ponto no presente entre o passado e o futuro.   Convive com tarefas e técnicas tradicionais de sua profissão, mas precisa atravessar para uma outra realidade, onde estão indo seus clientes e aprender conviver com o novo e o inusitado, numa constante renovação da novidade. Estas são mudanças dinâmicas em um estático panorama do ensino no Brasil, principalmente nesta área e na graduação. Não se pode atribuir culpa excessiva às políticas públicas; o pensar e o fazer de uma área de conhecimento é em grande parte um privilégio e um dever daqueles que nela trabalham.

Na língua inglesa existe uma diferença fundamental entre as palavras “policy” e “politics”. Policy significa o conjunto de procedimentos para a execução de uma ação; é o lugar dos programas e planos de execução dos projetos e anteprojetos dos “green papers”, os livros verdes. A arte de governar e’ explicitada, e o governado participa ativamente da policy, neste momento, ainda, com um sentido como que, privado em referência a sua aceitação na sociedade.

Já “Politicts” representa a ação do Estado, grupo organizado com seus cidadãos. È o lugar onde, as atividades, as ações se exercem entre os homens correspondendo a uma condição da pluralidade. A arte de governar torna-se a prática de governo. Aqui os projetos adquirem a condição onde, suas ações devem afetar os seres humanos em uma circunstância de igualdade e de aceitação recíproca.

Se o governo escolhe e executa o objeto da ação ele determina o curso dos acontecimentos; pode até estar fazendo um bom planejamento, mas não um planejamento com as características participativas, pois, estará determinando ao mesmo tempo a policy e a politics. A arte de governar implica em uma articulação com quem utilizara’ ou sofrera’ as consequências do objeto planejado. De outra forma o plano dificilmente se fará ação, quedará pelo peso inerte e desbalanceado de um discurso de intenções e perecerá no esquecimento das gavetas.

Pois assim as ações da área de informação não dependem, unicamente, da orientação do governo A área peca por: “incompetência tecnológica”, “individualismo exacerbado” e a “formação clusters de trabalho por relações sociais secundárias e não por merecimento ou competência”.

Leonardo Melo: A atitude investigativa está somente na pesquisa de trabalho acadêmico?  A elaboração de um tesauro ou de uma tabela de temporalidade requerem também uma atitude investigativa? Quais as diferenças fundamentais?

Aldo Barreto: O “lócus” privilegiado para pesquisa é a academia: sociedade ou congregação, particular ou oficial, com caráter científico, mas não somente a universidade.  Segundo o presidente da Academia Brasileira de Ciências Eduardo Moacyr Krieger no Jornal da Ciência E-Mail da SBPC de 01/agosto/2001 – No. 1843:

“Nos EUA, por exemplo, dos 270 milhões de habitantes, um milhão de pessoas se dedicam à C&T e 85% estão no setor privado. Apenas 15% são encontrados na Universidade. Os PhDs estão trabalhando majoritariamente na indústria, completou”.  No Brasil é o inverso. Dos 80 mil dedicados à ciência e tecnologia, 90% estão no setor universitário e entre 6% e 7% se dedicam ao setor produtivo. A pesquisa cientifica brasileira anda lenta com relação aos países do Primeiro Mundo e ha’ enormes diferenças regionais. Enquanto o Sudeste concentra 80% desses estudos, o Nordeste tem apenas 15%. Anualmente são obtidos 4.109 títulos de doutor em Universidades do Centro-Leste do país e apenas 147 em Universidades do Nordeste. Ele lamentou que as instituições privadas e a indústria não investem no setor, ao contrario do que ocorre nos países desenvolvidos.

A pesquisa tem características peculiares no Brasil. Há ainda que se conceituar pesquisa para uma melhor clareza da resposta à sua pergunta: Entendemos que uma pesquisa é um processo orientado para expandir as fronteiras do conhecimento; representa uma investigação ordenada e original que é coerente com uma linha de pensamento conceitual e teórica; segue uma intenção de mostrar evidências, através de um método racional de ação e experimentação e tem sempre a intenção de descobrir novas fronteiras de atuação e aplicação para um determinado campo de conhecimento.

Uma pesquisa possui assim os ingredientes básicos:

·        tem clara  intenção de produzir novo conhecimento;

·        é uma investigação ordenada, racional e original;

·        tem uma base conceitual evidente, claramente explicada;

·        possui um caminho claro, preciso e racional para atingir sua meta.

Nesse sentido, as elaborações de um tesauro, de umas bases de dados ou umas tabelas de temporalidade podem resultar de uma atitude investigativa de alto nível. Mas uma atitude investigativa sobre um objeto não o qualifica como uma pesquisa. No meu entender, os estudos acima indicados não se qualificam como uma pesquisa, embora possam resultar como subproduto de uma pesquisa. As palavras chaves para se determinar uma pesquisa são: originalidade, novidade, acréscimo do conhecimento revelado à base teórica da área.

Leonardo Melo: A gritante falta de recursos financeiros e recurso humano na pesquisa em Ciência da Informação no Brasil resulta de quais fatores, além da carência de verbas para tal?

Aldo Barreto: Existe uma falta de recursos que é própria da vida de um país como o nosso agravado pela discriminação orçamentária das áreas de ciências humanas e ciências sociais aplicadas. Existe uma explicação geral e específica para isto. A geral seria que: em um mundo global volta o pensamento das vantagens comparativas de Ricardo; os países do centro que possuem densidade em: pesquisa, laboratórios, técnicas, aparatos, recursos humanos e recursos financeiros fariam a pesquisa de ponta, inovadora. Os países da periferia consumiriam e/ou adaptariam esta pesquisa, pois não teria sentido duplicar. Não confunda, aqui, o pensamento colocado como sendo minha opinião.

A explicação específica seria a de as ciências humanas e sociais tem como objeto amplo o homem em seus espaços de convivência; são contextuais e explicam uma determinada realidade pesquisada, não possuem o grau de generalização das exatas. Daí seu interesse ser local mais que uma pesquisa de física nuclear de resultados gerais aqui no país como no resto do mundo. As ciências do homem sofrem também do que já falamos: um individualismo excessivo e uma forte agregação de seus membros por relações sociais secundárias, mais que por competência.

No Diretório dos Grupos de Pesquisa as informações enviadas pelas Instituições são aceitas como verdade. Não é função dos preparadores do diretório avaliar o material recebido, até porque o mesmo já passou pela avaliação, por exemplo, do diretor do Instituto ou do vice-reitor acadêmico da Universidade. Assim na formação dos grupos de pesquisa as condições que falamos no parágrafo anterior têm bastante influência. Pelo meu conhecimento da área pressinto que, somente, 40 % dos grupos em ciência da informação existem realmente ou quando existem estão fazendo pesquisa, o que vale, também, para o número de pesquisadores. É uma obrigação de cada comunidade se autoregular e indicar ao CNPq, autor do Diretório, estas irregularidades, quando da discriminação do conteúdo dos 78 projetos.

Leonardo Melo: A “juventude” da área (entre outras características) é em si um atributo negativo ou também aponta para desafios positivos de uma área historicamente recente?

Aldo Barreto: Uma área de conhecimento não pode se justificar durante uma geração inteira com a desculpa de “ser uma área nova”, compensando assim seus achaques existenciais. A ciência da informação tem mais de 50 anos, já é uma senhora. A sua irmã Biblioteconomia conviveu com tempos infindos. A juventude é a esperança da área em sua sobrevivência; área atualmente, envelhecida e cansada das lutas para subsistir no mundo e nos seus espaços de convivência, luta por respeito acadêmico, competência, produtividade e ideias novas.

Não resta muito tempo; a juventude deve se assenhorear desta continuidade tão rápido quanto seja possível.  Nossa missão está cumprida da forma como conseguimos cumprir. Que nos fique o aconselhamento, os escritos e as escrituras e a esperança de que nosso trabalho não tenha sido em vão. Domenico de Mais, socióloga do trabalho, diz que o problema de desemprego dos jovens seria solucionado, se seus pais passassem a trabalhar meio expediente, ou melhor, abrissem uma vaga inteira no mercado de trabalho.

Leonardo Melo: Dadas as atuais características da Ciência contemporânea, será que pode haver dúvidas de que a informação é o objeto de estudo da Ciência da Informação?

Aldo Barreto: Realmente não sei. Tenho que pensar primeiro no que considero o objeto da ciência da informação. Objetivos bem definidos, para uma área de estudos norteiam todo o pensamento subsequente em sua estruturação. Orientam sua pesquisa, o seu ensino, delimitam suas fronteiras, às inter-relações com outras disciplinas e o seu núcleo temático.

Neste final de século e devido a sua interação com uma tecnologia intensa, a ciência da informação redefine o conteúdo e a prioridade de seus objetivos frequentemente. Há cinco anos seria difícil ver como um dos objetivos da ciência da informação o estudo de bibliotecas virtuais, periódicos científicos on-line, correio eletrônico, listas de discussão eletrônica. Mas defino como o objeto da ciência da informação como: “ A ciência da informação se preocupa com os princípios teóricos e as práticas da criação, organização e distribuição da informação. Estuda os fluxos da informação desde sua criação até a sua utilização pela transmissão ao receptor em uma variedade de formas e através de uma variedade de canais; mostra a Essência de um fenômeno de transformação, entre uma linguagem do pensamento de um emissor para uma linguagem de inscrição de uma informação e a passagem para uma possível apropriação do conhecimento pelo receptor em sua realidade, onde se processa sua odisseia individual de desenvolvimento.”

Vista assim a ciência da informação só se explicaria como  uma ciência interdisciplinar. Creio que a abrangência da ciência da informação pertence a diferentes mundos e às suas interações.  A importância relativa, desses mundos, em um determinado tempo, estará indicada pela prioridade que os seus atores colocam no de valor, das intercessões e dos espaços delineados pelos três mundos da informação, desenhados abaixo com inspiração em Karl Popper[ii].

É na articulação destes espaços mundo, em suas prioridades, que estão localizadas: a pesquisa o ensino, a interdisciplinaridade e a atuação do profissional em Ciência da Informação.

LEONARDO MELO: A informação é o bem maior de uma sociedade globalizada?

Aldo Barreto: Que forma de atuação da informação eu perguntaria primeiro. Quando falamos dos estoques de informação, os acervos, o quantum de informação armazenado, penso que, poderíamos dizer que, este é um dos artefatos com que opera a sociedade globalizada, ou melhor, a sociedade globalizada opera com a posse e a distribuição dos estoques de informação. Mas veja, estoques estáticos de informação institucionalizada não geram conhecimento. Existem como possibilidade, como potência na condição de gerar conhecimento. Os livros todos nas estantes da Biblioteca Nacional, por exemplo, em seu estado estático de estoque não geram qualquer conhecimento.

Para que o conhecimento opere é necessária uma transferência desta informação par a realidade dos receptores e uma conjuntura de apropriação desta informação pelo individuo. Nesse momento nada é menos globalizado que a informação, pois nada é mais subjetivo e privado e individual que, a assimilação do conteúdo de uma informação pelo receptor. Nesta solidão de assimilação o receptor é uno e a apropriação da informação é dele e de mais ninguém. Wittgenstein [iii] fala sobre este momento com solenidade; “não podes ouvir Deus a falar com outrem só o podes ouvir se fores tu a pessoa a quem a palavra é dirigida. Isto é uma observação gramatical”. Neste fluxo de passagem a informação é totalmente individual.

Leonardo Melo: Diante da nossa realidade e da complexidade em formular conceitos da ciência da Informação, poderíamos dizer que é necessário deixar um pouco de lado questões teóricas de definição para nos dedicarmos um pouco mais no desenvolvimento de ações sociais?

Aldo Barreto: Não acho que seja uma barreira a formulação de conceitos para a ciência da informação.  Formulei-os à vontade nessa entrevista. Penso que é imprescindível não deixarmos de lado as questões teóricas, sob pena de não sabermos mais, onde estamos e o que fazemos. Entre outras coisas a teoria explica as práticas, as aplicações a as coloca em um mesmo tecido, com consistência e sentido de pertencimento a um todo coerente.

Aliás, só a teoria me permite alongar a sua pergunta quando penso que:

As estruturas de informação (documentos) são armazenadas ou estocadas no que, denominamos de estoques de informação. Estes agregados podem ser tais como: acervos em bibliotecas ou outro centro de informação ou documentação, bases de dados, arquivos ou estoques em um outro meio eletrônico. O destino final de qualquer agregado de informação pode ser expresso em três equações básicas:

a) K= f (I)

O conhecimento é uma função da informação, como colocado na definição que assumo para a informação: estruturas simbólicas com a intenção de gerar conhecimento no individuo, e seu grupo social.

b) D = f (K)

O desenvolvimento do indivíduo e da sociedade é função do conhecimento acumulado como estabelecido por elementos da teoria econômica e da própria condição humana; e assim operando a e b:

c) D = f (I)

O desenvolvimento é uma função da informação.

Assim é nossa crença que o destino final, o objetivo do trabalho com a informação é promover o desenvolvimento do indivíduo de seu grupo e da sociedade. Entendemos por desenvolvimento de uma forma ampla, como um acréscimo de bem estar, um novo estágio de qualidade de convivência, alcançado através da informação. A ação social maior é fazer a luz brilhar para cada ser humano através da informação como mediadora do conhecimento, a luz nos homens. Agostinho, o Santo na sua conversão clamava: “de que adianta esta luz Senhor, se ela não brilha em mim”.

Notas:

[i] Nietzsche, F. – Assim Falava Zaratustra, Editora Tecnoprint S.A, Rio de Janeiro, [sem data], primeira parte, Preâmbulos.

[ii] POPPER, Karl, Objective Knowledge, Oxford University Press, 1979

[iii] Wittgenstein, L., Zettel, Edições 70, Lisboa, 1981.

Os mundos da Informação

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