Desmemórias no mundo contemporâneo (*)

Consolidação da memória, figura do livro “Cem bilhões de Neurônios” de Robert Lent, 2010

 (Consolidação da memória, figura do livro “Cem bilhões de Neurônios” de Robert Lent, 2010)

 

Excesso de informação e as (des)memórias no mundo contemporâneo (*)

Pense no dia mais feliz de sua vida. Agora imagine se fosse capaz de recordar esse dia com total riqueza de detalhes, como se o estivesse vivendo novamente. Tentador, porém impraticável. Ao contrário de Funes, personagem do escritor Jorge Luis Borges, nossa memória opera seletivamente, fazendo escolhas dentre tudo o que nos acontece diariamente. Sem tal esquecimento, seria impossível aprender em meio a tantas lembranças triviais. A perda de memória consistente, que evidenciaria algum problema de saúde, só deve ser considerada quando representar grande prejuízo na vida cotidiana, situação comumente associada ao envelhecimento. Ocorre que, atualmente, com o uso intensivo das plataformas digitais e excesso de informações decorrentes dos novos hábitos da vida contemporânea, pessoas mais jovens reclamam de esquecimento e desconcentração.

Mais recentemente, as falhas no processo de consolidação da memória em jovens passaram a ser associadas à falta de concentração durante a leitura de um texto digital. A explicação seria de que o excesso de informações e estímulos da internet estaria produzindo um usuário multitarefa e, portanto, menos concentrado, o que acabaria por prejudicar a memorização da informação. Essa hipótese ainda é especulativa. “A internet pode causar o enfraquecimento de um tipo de memória, mas promover o ganho de outra. A única coisa certa nisso tudo é que se queremos nos lembrar realmente de alguma coisa, precisamos prestar atenção enquanto aquela informação é codificada.”

O psiquiatra Gary Small, especialista em memória da Universidade da Califórnia, conduziu diversos experimentos em 2008 com grupos de internautas que realizavam buscas no Google. Os resultados sugerem que embora a internet intensifique a atividade cerebral, as áreas mais ativadas são aquelas relacionadas à tomada de decisões e não à compreensão de texto. Isso pode ser decorrente da linguagem característica dos textos digitais que induzem o leitor a desviar sua atenção para decidir se clica ou não num hyperlink que dá acesso a outra página. Mas antes de culpar a internet, é preciso considerar que, ao ativarmos uma região do cérebro que não é normalmente estimulada pela leitura de livros impressos, estamos ampliando outras funções cognitivas que podem ser muito úteis ao aprendizado, o que é especialmente positivo no caso dos idosos.

A emergência da cibercultura na década de 1970 alterou as formas de sociabilidade do homem de tal modo que se torna interessante entender como as tecnologias da informação influenciam também a construção de nossa memória. No livro As tecnologias da inteligência: O futuro do pensamento na era da informática (1995), o filósofo Pierre Levy coloca que “no caso da informática, a memória se encontra tão objetivada em dispositivos automáticos, tão separada do corpo dos indivíduos ou dos hábitos coletivos que nos perguntamos se a própria noção de memória ainda é pertinente”.

A citação chama a atenção para as analogias frequentes entre cérebro e computador. “Levy tem certa razão ao ressaltar o aspecto problemático da utilização do mesmo termo (memória) tanto para o complexo fenômeno humano quanto para as máquinas cibernéticas. O uso comum pode se prestar à equivocidade, na medida em que a memória humana, quer no plano individual quer no coletivo, diz respeito à vivência num tempo e espaço, ao contrário da informática que apenas armazena informações”, pontua Maria Cristina Ferraz, professora da Universidade Federal Fluminense.

(*)  Fonte:     fragmentos editados do artigo de Daniela Ingui “Excesso de informação e as (des)memórias no mundo contemporâneo” na Revista Ciência e Cultura, vol.63 no.2 São Paulo abril. 2011

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