A comunicação interrompida

A geografia das narrativas tem na palavra um ponto de referência exato para sua jurisdição. A palavra é a menor unidade de significado e agrega-se formando frases, sentenças e sistemas de sentenças totalizando-se no texto. Estruturalmente o estudo do arcabouço e formação de palavras é uma questão de morfologia do texto que permite decompor sua estrutura em suas unidades mais simples que espelham seu significado.

Ao ser construída uma narrativa vem de uma linguagem simplificada do pensamento do seu gerador para uma linguagem determinável de edição da escritura. Já discutimos em outro artigo a maneira como a escrita distancia o autor e do seu pensar. Indico o que penso ser as características da linguagem do pensamento de onde o autor organiza mentalmente sua narrativa antes da escrita:

– as palavras são aditivas em sua narrativa, não se subordinam; possui uma tendência para ser redundante ou a reutilizar conceitos constantemente; uma organização simples em sua forma, com frases pequenas e de palavras curtas; possui uma tendência à estabilidade interna com um retorno constante aos conceitos já usados; é situacional mais que abstrata.

Por outro lado podemos afirmar que a escrita, a representação gráfica da linguagem, usa códigos padrões e delineáveis:

– é explícita, formal, de padrões normativos e de procedimentos formalizados; procura eliminar a redundância e palavras indeterminadas; utiliza figuras de linguagem e é rica em metáforas; usa uma grande liberdade semântica; é uma linguagem morfologicamente coerente e passível de ter alguma definição de padrões e procedimentos. As duas linguagens operam para criar conhecimento e a comunicação entre as pessoas.

Neste caso mexer com a liberdade das palavras produz casos estranhos como os abaixo, todos verídicos. segundo a autora que os conta: *

Um chimpanzé de nome Lucy e nasceu no do Quênia. Foi adotada por um casal de biólogos ingleses, que a pegaram ainda bebê, depois a criaram dentro de casa como se fosse humana e lhe ensinaram a linguagem dos surdos mudos, o que, aliás, não é nada extraordinário, porque muitos primatas já aprenderam a entender e usar este código gestual.

Passaram-se assim muitos anos, talvez quinze ou vinte, e os biólogos se aposentaram e tiveram que voltar para Londres. Era impossível levar Lucy consigo, de maneira que a deixaram num zoológico em Quênia

Anos se passaram e certo dia um professor de crianças deficientes que passava as férias na África foi visitar o jardim zoológico e deu com um chimpanzé agarrado às barras da jaula e fazendo gestos absurdos e frenéticos dirigidos a qualquer um que estivesse por perto. O professor, curioso, também se aproximou e ficou paralisado quando percebeu que entendia o que o animal estava dizendo.  Era Lucy que, na linguagem dos surdos-mudos pedia desesperadamente a todos : “Tirem-me daqui, me tirem-me daqui, tirem-me daqui…”.

“O traumático nem sempre é aquilo que faz barulho, mas sim o que fica mudo. E, lá do silêncio, faz ruídos.”

Há aquele outro caso, verdadeiro e terríveis de incompreensão das palavras.   Um mendigo de Nova York que foi tirado das ruas pela assistência social, por ter desmaiado de frio, ou por ter sido atropelado de leve sem consequências.  Seja como for, ele foi submetido a uma avaliação superficial e consideraram que estava doido de pedra: não falava, não dava sinais de reconhecer nada do que lhe diziam, bramava e se sacudia furiosamente.

Um juiz determinou que podia ser um perigo para si mesmo e para os outros e mandou interná-lo num hospital psiquiátrico. O homem passou dez anos trancados num manicômio até que alguém descobriu que não era maluco, e sim mudo e romeno: era um imigrante ilegal recém-chegado ao país quando foi detido. Não entendia o que lhe diziam e não conseguia se expressar em palavras a sua fúria. Era a angústia de quem se sabe incompreendido sem poder falar as palavras certas.

O Controle das palavras, não é compreensível na comunicação, principalmente, se o desejo é determinar como as pessoas devem escrever ou falar por um código formalizado. Controlar palavras é controlar pensamentos.

O português já veio pelo nosso desbravador, ele, é derivado do latim, do conquistador romano e salpicado pelo árabe do conquistador mouro e pitadas de linguagens africanas sempre respeitando nesta mistura a liberdade da língua formada e sua grafia.  Mas,  Isso lembra  a história do século 18, quando  o naturalista alemão Humboldt foi a Venezuela encabeçando uma expedição científica. Em determinado momento da viagem, chegaram à aldeia dos índios Atures e descobriram que ela havia sido incendiada até os seus alicerces pelos agressivos índios Caribes.

Os restos dos Atures já começavam a ser cobertos pela selva. Buscaram e buscaram, mas não havia sobrevivente algum. Só encontraram um aturdido papagaio de cores brilhantes que vivia entre as ruínas e repetia, uma e outra vez longos, inflamados discursos  numa língua incompreensível. Era a língua dos Atures, mas não restava mais ninguém que a entendesse. A peleja matou a palavra.

Mexer nas palavras que um povo fala é controlar o conhecimento e sua apropriação. O que faz ruído, não é o problema da liberdade de enunciar escritas novas e sim o que depois fica mudo.

Aldo A Barreto

 

* Fonte:  O Silencio da Informação, capítulo do Livro de Rosa Montero, “A louca da casa”, Ed. Ediouro 2003. [“a imaginação é a louca da casa” dizia Santa Tereza de Jesus

 

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