PALAVRAS, PALAVRAS SOLTAS, DESLOCADAS


A estrutura do texto escrito, quando em sua análise morfológica, é uma construção e desconstrução de palavras colocadas e deslocadas. Uma estrutura de palavras é pensada como elementos que se unem e formam um todo ordenado e com princípios lógicos, com coerência de raciocínio e de idéias. Uma narrativa, assim, possui características estruturais de linguagem que admitem uma análise de suas unidades, quando as partes irão representar um todo.

Como um pensamento singular, quando o autor quer elaborar seu discurso ele como que busca palavras específicas para formar seu enunciado , mas quer colocar na nuance da sua mensagem aquilo que quer falar para diferenciar um de outros textos. É na nuance que um autor deixa a pista do que quer nos revelar.

Nas palavras de J.L. Borges: “é preciso ser fiel ao sonho e não às circunstancias. …as palavras começam, em certo sentido, como mágica. Associando ao traço visível à coisa invisível, a coisa ausente que é desejada ou temida, como frágil passarela improvisada sobre o abismo”. As palavras nos significam e nos definem e identificam, também, aqueles que tratam conosco. Escrever pode, então, ser um lamento em uma canção de amor não correspondido.

“Malogramos sempre ao falar do que amamos”, originalmente destinado a um colóquio sobre Stendhal em Milão. Este foi o último trabalho de Roland Barthes. O autor depois de escrever seus textos os datilografava, fazendo pequenas alterações. A segunda página de “Malogramos sempre ao falar do que amamos” estava em sua máquina de escrever em 25 de fevereiro de 1980. Naquele dia, Barthes foi atropelado por uma caminhonete em frente ao College de France, onde ministrava um curso. Morreu num hospital não muito distante, um mês depois, a 26 de março. “Eran las cinco en punto de la tarde. Eram as cinco de la tarde em todos os relógios!”

Barthes começa “Malogramos sempre ao falar do que amamos” narrando um episódio imaginário acontecido na estação de trem de Milão. Da plataforma, numa noite fria e cinzenta, ele vê partir um trem destinado a cidade de Lecce. Ele se imagina viajando para lá até o amanhecer; vê a luz, a doçura e calma fantasiadas. Saído do transe, Barthes logo se lembra de parodiar Stendhal: “Então eu vou ver essa bela Itália! Como ainda sou louco nesta minha idade!” E acrescenta uma frase que, na minha opinião, é um hino aos que não conseguem ter o seu amor correspondido: “Porque a bela Itália está sempre longe, noutra parte.”

Eu vivi a minha área de ciência da informação com a amplitude da informação primária. Procurei repassar este amor aos meus alunos e é no conhecimento e na lembrança deles que ainda vivo com mais intensidade vivo melhor e para mais tempo. Se eu vim ao mundo foi para cumprir esta tarefa como meta de vida. Nessa perspectiva o mais que fiz não vale nada.

Mas malogrei ao querer que meu amor fosse correspondido. Para mim a bela Itália ficará agora, muito longe, em outra parte.

Deixo como recado, aos que pensaram que me afligiram, as palavras de Sêneca, o filósofo que no ano 41 da era cristã perdeu tudo: amores, amigos, carreira política e foi desterrado para local ermo na Córsega:

“Jamais confiei na fortuna. Todas as bênçãos que ela derramou sobre mim – riqueza e prestígio – releguei de tal maneira que ela sempre pode retomá-las sem me causar aflição. Mantive sempre grande distância entre ela e seus favores. A fortuna apenas tirou-me o que me havia concedido, portanto, nada levou de mim.”

Aldo de A Barreto
30 de Outubro de 2010

Um comentário em “PALAVRAS, PALAVRAS SOLTAS, DESLOCADAS

  1. Olá, Prof. Aldo!

    Este contrato de amizade é muito lindo, é o coração falando mais alto em relação a amizade e seu valor.
    E com certeza nós, seus alunos, percebemos seu amor pela ciência da informação, sua dedicação, e o carinho com que a transmiti para todos gratuitamente.
    Em nossa memória ficará não apenas seus ensinamentos, mas sim a pessoa adorável que o Shº é, e desejo renovar meu contrato com o senhor por prazo indeterminado. MuitObrigada por tudo. Val

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