O traçado de uma nova escrita eletrônica


Uma escrita é denunciada pelo seu “grammé”, que é o seu traço, não só uma grafia, mas a articulação entre a inscrição e seus elementos sensíveis e espaciais denotando a extensão do significado pela sua condição de apresentar possibilidades de explanação visual, gestual, figural, musical, verbal.

Sendo a escrita uma interface visual da linguagem a sua grafia é a arte de escrever palavras que remetem a um imaginário tradutor de significados. O traço de uma grafia difere em inúmeras culturas, entre elas pode-se destacar a japonesa, a chinesa e a árabe.

Dependendo do modo do texto, o sistema de representação da língua, pode ser um enunciado que vai de palavra a palavra; ou ser comandado por Lexias que são unidades de leitura (em um hipertexto), um corte arbitrário em que a substância da palavra entra em um terremoto de significação transportando a narrativa para um texto plural.

Este traço ou o grammé, como o chama Jaques Derrida [1], vem do grego “gramma” (letra, escritura), não é uma substância presente aqui e agora (não se pode ver, sentir ou ouvir a diferença): o traço da escrita é a diferença em si, isto é, a diferença de existir em mais de um espaço. Uma contestação temporal de um adiamento do significado. Esse diferencial na estrutura, ou melhor, esse princípio estruturador envolve o registro, a transferência e leitura da informação. O DataGramaZero seria por afinidade o “marco zero de uma nova escrita.

A revista nasceu e ainda traz uma condição experimental para o estudo das novas formas de escrita e leitura. Sua aposta é que o ato da leitura deve se realizar como um ato de criação em si mesma. É uma ousadia em um mundo editorial que, ainda considera um texto publicável como uma obra fechada; que vai do emissor ao receptor, sem potencializar as nuances do imaginário no processo de geração e de assimilação da informação. Ser livre e estar on-line marcam a realidade do DGZ, que pretende um futuro conversacional dentro de uma organização social do diálogo (talk-in-interaction)[2], mais ai já sem uma autoria decidida.

A autoria do premio Nobel da Paz de 2007 foi concedido a Al Gore dos EUA e ao Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas da ONU pelo esforço conjunto na criação e difusão de conhecimento sobre da influência humana no clima. De início procurou-se uma pessoa no Painel, que reúne cerca de três mil cientistas e especialistas de várias áreas em todo o mundo, que pudesse representar o esforço da pesquisa. A própria rede concluiu, porém, que o resultado de seu trabalho era um conjunto e não teria um autor individual. O documento gerado era assinado pelo Painel como um todo.

O Datagrama tem onze anos e uma média de cinco artigos com dois autores por número. Na revista procura-se demarcar a autoria em até quatro autores para um artigo. Entende o Datagramazero que a geração de ideias nas ciências humanas e sociais possui um discurso de criação personalizado, o que torna muito difícil marcar na estrutura do artigo qual foi a parte de cada um dos autores.

É uma condição diferente das áreas exatas onde na bancada do laboratório pode-se qualificar a participação de cada um no processo que resultou a escrita. Nestas áreas credita-se como autor até o gerador de dados, que neste caso pode ser um importante colaborador.

O que faz de um indivíduo um autor individualizado, em humanas e sociais, é o fato de podermos demarcar e delimitar através de seu nome o seu pertencimento à área do conhecimento pelos os textos que lhes são atribuídos. Textos se conectam através de vínculos semânticos (ideias) e sociais (co-autores) determinados por aproximações e afinidades construídas ao longo da institucionalização da área.

Foucault [3] indica que a “função-autor” não se constrói simplesmente atribuindo um texto a um indivíduo com poder criador, mas constitui uma característica do modo de existência dos discursos no interior de uma cultura, ou seja, indica que tal ou qual discurso deve ser recebido de certa maneira e que deve numa determinada área, receber um certo estatuto. O que faz de um indivíduo um autor é o fato de através de seu nome delimitamos os textos que lhes são atribuídos relacionando-os claramente com tema de um campo. Os textos científicos, sobretudo, deveriam ser avalizados pelo nome de um autor, como os tratados de medicina, por exemplo.

O discurso de um campo e os seus enunciadores definem o vigor da área e a vulgarização da autoria a enfraquece. Contudo, no DGZ, muitos artigos surgem da colaboração de grupos ou rede de pesquisas. Neste caso a autoria fica difusa e optamos por conceder à rede ou ao grupo a criação. Caso o grupo nomeie um autor relacionamos os demais partícipes, em uma nota, onde todos são relacionados. Há que considerar a dificuldade de lidar com o fato de uma escritura em si, que trouxe o seu “grammé” com suas analogias, inferências e antipatias, não foi uma elaboração conjunta de todos. Pois o discurso das humanas se particulariza quase visualmente.

Assim, em onze anos de publicação do DGZ [4] podemos contar cerca de trezentos e cinquenta artigos e algo como quinhentos autores e temos “autores rede” como o “Programa Sociedade da Informação”. Sendo ainda um a revista experimental, frequentemente meditamos sobre a natureza do seu conteúdo. Nascida como de ciência da informação, atualmente, esta dominância temática é questionada; até que ponto a revista teria deixado a especificidade de uma área para livre de suas amarras tratar da informação escrita em geral.

Como uma primeira aproximação destes estudos analisamos os titulos desta base de artigos para contagem da frequência com que “palavras” aparecem nestes 350 títulos e encontramos o quadro de frequência abaixo.

* palavras aparecendo com a mesma frequência.

Assim a palavra “informação” apareceu 170 vezes nos títulos dos artigos enquanto “organização”ou “gestão” apareceram 16 vezes cada. Na nossa análise o quadro 1 mostra uma tendência para a ciência da informação com um viés cognitivo e novos aspectos da tecnologia da informação.

Saber como as palavras acima se combinaram nos títulos que analisamos pode dar uma indicação melhor do conteúdo da revista e isto pode ser visto abaixo. O algarismo a direita indica o número de vezes que a combinação apareceu em diferentes títulos:

3 GESTÃO_CONHECIMENTO
3 INFORMAÇÃO_CONHECIMENTO
3 INFORMAÇÃO_ESTRATÉGICA
3 POLÍTICAS_INFORMAÇÃO
3 PRODUÇÃO_CIENTÍFICA
2 ABORDAGEM_REPRESENTAÇÃO
2 CONHECIMENTO_CIENTÍFICO
2 INFORMAÇÃO_ANÁLISE
2 INFORMAÇÃO_ESTUDO
2 INFORMAÇÃO_MEMÓRIA
2 INFORMAÇÕES_CONHECIMENTOS
2 PROFISSIONAIS_INFORMAÇÃO
2 SOCIEDADE_CONHECIMENTO
2 SOCIEDADE_INFORMAÇÃO
2 TECNOLOGIA_INFORMAÇÃO
1 TESAUROS_ONTOLOGIAS
1 CIÊNCIA_INFORMAÇÃO_DIGITAIS
1 CIÊNCIA_INFORMAÇÃO_MEMÓRIA
1 CLASSIFICAÇÃO_SOCIAL_INFORMAÇÃO
1 CONHECIMENTO_GESTÃO_CONHECIMENTO
1 CONHECIMENTO_ORGANIZAÇÃO_INFORMAÇÃO
1 CONHECIMENTO_ORGANIZAÇÕES_CONTEXTO
1 CONHECIMENTO_PRODUÇÃO_INFORMAÇÃO
1 CONSTRUÇÃO_SOCIAL_INFORMAÇÃO
1 EDUCAÇÃO_POLÍTICAS_PRÁTICAS
1 INFORMAÇÃO_CIENTÍFICA_CLASSIFICAÇÃO
1 INFORMAÇÃO_CIENTÍFICA_LINGÜÍSTICA
1 INFORMAÇÃO_CONSTRUÇÃO_CONHECIMENTO
1 INFORMAÇÃO_PRODUÇÃO_CONHECIMENTO
1 INFORMACIÓN_UNIVERSIDADE_INFORMAÇÃO
1 INOVAÇÃO_INFORMAÇÃO_CONHECIMENTOS
1 INTELIGÊNCIA_COMPETITIVA_CONSTRUÇÃO
1 MODELO_LEITURA_DOCUMENTÁRIA
1 ONTOLOGIAS_METADADOS_CONTEXTO
1 PESQUISA_CIENTÍFICA_BRASIL
1 PROFISSIONAIS_INFORMAÇÃO_ORGANIZAÇÃO
1 RELAÇÃO_ENSINO_PESQUISA
1 SERVIÇOS_ABORDAGEM_ORGANIZAÇÃO
1 SERVIÇOS_TECNOLOGIA_INFORMAÇÃO
1 SOCIAIS_CONHECIMENTO_INFORMAÇÃO
1 SOCIAIS_TRABALHO_DIGITAIS
1 SOCIAL_GESTÃO_CONHECIMENTO
1 TECNOLOGIA_INOVAÇÃO_SOCIEDADE
1 CIÊNCIA_INFORMAÇÃO_DIGITAL_INTERNET
1 CIÊNCIA_SOCIEDADE_CONHECIMENTO_INFORMAÇÃO
1 CIENTÍFICO_CIÊNCIA_INFORMAÇÃO_ABORDAGEM
1 CIENTÍFICOS_CIÊNCIA_INFORMAÇÃO_ANÁLISE
1 CONHECIMENTO_CLASSIFICAÇÃO_SOCIAL_INFORMAÇÃO
1 CONHECIMENTO_CONSTRUÇÃO_SENTIDO_INFORMAÇÃO
1 CONHECIMENTO_ORGANIZACIONAL_ABORDAGEM_PRÁTICAS
1 CONSTRUÇÃO_SOCIEDADE_INFORMAÇÃO_BRASIL
1 CONTEXTO_DIGITAL_TRATAMENTO_INFORMAÇÃO
1 ENSINO_PESQUISA_CIÊNCIA_INFORMAÇÃO
1 INFORMAÇÃO_GESTÃO_CIÊNCIA_TECNOLOGIA
1 INFORMAÇÃO_INFORMAÇÃO_INTELIGÊNCIA_ORGANIZACIONAL
1 INFORMAÇÃO_SOCIAIS_INFORMAÇÃO_MEDIAÇÃO
1 INTELIGÊNCIA_COMPETITIVA_GESTÃO_CONHECIMENTO
1 INTELIGÊNCIA_COMPETITIVA_MEDIAÇÃO_PROCESSOS
1 LINGÜÍSTICA_DOCUMENTÁRIA_TERMINOLOGIA_INFORMAÇÃO
1 PERSPECTIVA_GESTÃO_CONHECIMENTO_SOCIEDADE
1 PESQUISA_CIÊNCIA_INFORMAÇÃO_BRASIL
1 PESQUISA_CIÊNCIA_INFORMAÇÃO_CONTEXTO
1 POLÍTICA_TRATAMENTO_INFORMAÇÃO_DOCUMENTÁRIA
1 PROCESSO_INTELIGÊNCIA_COMPETITIVA_ORGANIZAÇÕES
1 PROPOSTA_MODELO_REPRESENTAÇÃO_CONHECIMENTO
1 RELAÇÃO_CIÊNCIA_TECNOLOGIA_SOCIEDADE
1 REPRESENTAÇÃO_INFORMAÇÃO_GESTÃO_INFORMAÇÃO
1 SOCIEDADE_INFORMAÇÃO_CONHECIMENTO_INOVAÇÃO
1 TECNOLOGIA_ANÁLISE_CONCEITO_TRATAMENTO
1 TERMINOLOGIA_CIÊNCIA_INFORMAÇÃO_PERSPECTIVA
1 COMUNICAÇÃO_INFORMAÇÃO_LEITURA_DOCUMENTÁRIA_PERSPECTIVA
1 GESTÃO_CONHECIMENTO_INOVAÇÃO_INFORMAÇÃO_PROCESSOS
1 INFORMAÇÃO_GESTÃO_ESTRATÉGICA_INFORMAÇÃO_ESTUDO

Aldo de A Barreto

Nota:
[1] Derrida, Jaques, “Ousia et grammé”in L’endurance de la pensée, Editora Plon, Paris,1968
[2]Talk-in-interaction:
http://www-users.york.ac.uk/~rao1/Manchester_2005.pdf
[3] [Foucault, Michel (1992) O que é um autor?. Vega: Passagens. Tradução de Antonio F. Cascais e Edmundo Cordeiro. Lisboa, Portugal.
[4] http://www.dgz.org.br ou http://www.datagramazero.org.br

2 comentários em “O traçado de uma nova escrita eletrônica

  1. Olá Aldo,
    De fato, a rede faz a autoria ser cada vez mais difusa, como vc argumenta neste post.
    Vejo que há vários temas afins com minha pesquisa aqui no seu blog.
    Por isso, já coloquei um link para cá.
    Um abraço,
    Bia

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