Ocultando a Informação

A informação foi definida por nós como estruturas significantes que tem a competência e intenção para gerar conhecimento. Assim, o seu estudo como tendo uma intenção promotora do saber está relacionada com sua estrutura e a sua base de inscrições significantes. Esconder parte destas inscrições oculta significados da informação, mediadora do conhecimento.

A geração de estoques de conteúdos quando adotou para si os preceitos de produtividade pela técnica, como sendo uma racional de armazenamento, foi motivada pela crescente produção de informação no mundo a ser reunida e acervada de forma eficiente e dentro de limites da eficácia e custo dos estoques.

Era, assim, necessário um processamento técnico, redutor dos conteúdos da mensagem usando metalinguagens transformadoras do seu significado simbólico; ocultava-se, assim, o universo da linguagem natural, que é uma referência do homem para interpretar e apropriar narrativas. Esta atitude técnica no processo de armazenar foi uma decisão política e econômica dos produtores de informação.

Neste sentido quanto mais complexa as configurações entrelaçadas no processamento, organização e disseminação da informação maior será a possibilidade de ocultar esta mensagem do receptor. E é assim que, no processo de transformação para produzir a sua guarda que se oculta a informação por uma decisão operacional, mas que tem influência na realidade dos receptores.

Talvez por uma nostalgia do presente, referindo-me ao passado. Assim volto a 1945, na época do final da segunda guerra e ao enorme volume de documentos que, restrito por segredo de guerra, foram publicitados, isto é, passaram a integrar o fluxo formal de documentos disponíveis aos receptores. Institui-se nesta época a condição teórico-operacional dos chamados “Sistemas de armazenamento e Recuperação da Informação” com intenção de ordenar a confusão estabelecida. Por operar em favor do receptor este esquema pode implantar com facilidade procedimentos de exclusão da informação.

Pela preocupação com o gerenciamento dos acervos tais “Sistemas”, pensados a partir dos “Information Retrieval System” têm técnicas precisas comandando suas práticas operacionais. Tão forte é o seu impacto na ideologia interna da atividade informacional que por vezes induz a pensar que trabalha sempre no melhor sentido. O sistema de armazenamento de documentos prejudica o receptor quando reformata conteúdos, violência simbólica, na exclusão de significados, ainda que, a decisão operacional possa ser pensada para ser um benefício. Assim, existem tipos básicos de ocultamento da informação.

A primeira ocultação da informação que se dá no momento de sua interiorização pelo indivíduo, pois assimilamos só aquilo que podemos e não tudo o que gerador quis nos transmitir. Quando, também, usamos a tecnologia da escrita para elaborar um texto excluímos uma boa parte do imaginário da criação do emissor, para subjugar o pensamento às necessidades de edição e do formato do texto.

Outro ocultamento por exclusão da informação é a triagem dos documentos que vão entrar para agregar aos estoques, Neste ponto muitos documentos são eliminados para atender as características especificas de cada estoque, como condições temáticas, de inovação, abrangência, etc.. Ocultam-se significados, também, quando o conteúdo destes documentos é alterado em sua escrita, isto é, quando palavras que formam a narrativa são selecionadas e passam a referenciar o todo; mais ainda, quando se usa, neste processo, uma linguagem controlada que não é a natural da escrita do original. Trocam-se palavras do texto original que promover uma recuperação compatível tendo os mesmos indicadores na entrada e na saída. Tudo em nome da melhor recuperação e precisão da demanda do usuário.

Contudo, este é um ocultamento da informação prejudica o imaginário dos atores do processo, pois é pela escrita que ativamos a emoção e a consciência para gerar e assimilar significados. Sabemos que este conhecimento viaja pelos vários bilhões de neurônios localizados no cérebro e que estes são os responsáveis pelo pensamento, consciência e memória.

Estes neurônios quando estimulados produzem uma diferença de tensão potencial que gera uma tênue corrente elétrica. Esse estímulo elétrico se propaga e permite o contato com neurônios vizinhos, formando conexões semelhantes a uma rede. Não se sabe como, mas é nesta rede de conexões que formata a condição de assimilar a informação. O conhecimento é este tênue acender e apagar de luzes que, se não acontece adequadamente ou é desligado, o caminho é desfeito, a rede não se forma e a informação não gera a apropriação adequada.

Com a queda do custo dos arquivos e a Internet o predomínio do documento completo em sua escrita original determinou o fim do instrumental dos mediadores pela formatação do imaginário do autor e da sua escrita. Porém, a própria web, também, oculta informação devido ao excesso da sua geração. Sabemos hoje que existe uma web de superfície que representa cerca de 40 % de todos os documentos armazenados e uma web profunda onde estariam os demais textos. Os buscadores comuns tem acesso só a esta superfície e não aos outros 60 % que ficam em uma potencial exclusão. A sobrecarga de informação, também, a esconde.

Conta Jorge Luis Borges, ilustrando este excesso, que o senhor Irineo Funes por questão de uma doença passou a ter uma memória sem limites e sem esquecimento. ” Eu tenho mais memórias em mim que todos os homens tenham jamais tido, desde que o mundo é mundo” conta ele ao narrado da história. Irineo Funes não lembrava só de cada folha em uma árvore, mas cada vez que via a mesma árvore em posição ou hora diferente uma nova memória se formava. Era incapaz de ideias gerais. Não podia armazenar somente o símbolo genérico “cão”. Este símbolo como todos os demais era diversificado na sua memória, como o cão das dez horas, o cão da tarde, o cão de perfil. Ao relembrar de algo em outro contexto, esta informação era adicionada como nova à sua memória. Irineo Funes, não podia esquecer por uma condição de sua natureza. “Minha memória senhor, minha memória é um imenso depósito de lixo”. O acumulo de informação para processamento e assimilação provocava seu ocultamento. Há que existir um sistema de deslembramento para amenizar a sobrecarga.

Democratizar a informação em um sentido de inclusão deve então envolver programas e planos para facilitar e aumentar a disponibilidade o acesso e a possibilidade de seu uso de forma adequado e sem excesso. Isto significa, também, diminuir a exclusão por ocultamento técnico ou econômico da informação. É necessário, ainda, que o indivíduo que recebe significados tenha sua rede de neurônios em condições de elaborar o insumo recebido, transformando-o em conhecimento esclarecedor e libertador. A grande força da inclusão é, portanto, a educação. A educação amplia esta rede que acende e apaga para uma tensão potencial de interiorização.

Aldo de Albuquerque Barreto
Texto (revisto) publicado em Colunas no DataGramaZero de jun/2010

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: