Um distanciamento que não permite o foco

Em maio de 2001 os cientistas pelo mundo estavam em fúria contra o excessivo domínio da informação pelos editores científicos. Diziam que este comércio pela sua excessiva preocupação com o lucro excluía a maior parte do publico do saber gerado pela C&T, pois não podiam pagar as assinaturas e ter acesso às pesquisas publicadas nos periódicos. A matéria tinha sido exposta por um jornal inglês mostrando o preço cobrado pela assinatura dos principais periódicos em ciência e tecnologia.

As pesquisas relatadas nestes periódicos, grande parte delas tratando de informação sobre saúde, tinham interesse fundamental para o bem estar da sociedade e eram mantidas em segredo da maioria devido ao preço absurdo dos periódicos. Uma parte do acervo do conhecimento humano ficava oculta da sociedade por uma exagerada preocupação com lucro no setor de gerencia de estoques de informação. Nenhum poder deveria guardar as chaves do conhecimento.

A reportagem do jornal “The Guardian” de Maio de 2001 traz dados de custo de alguns periódicos como, por exemplo, – Brain research com custo anual equivalente a 30 mil reais na época; – o Journal of virological methods ao custo de 7 mil reais e o – Neuroscience letters, equivalente a 9 mil reais por ano. [Ver Fonte Jornal The Guardian abaixo indicada]

Não sabiam as casas editoras que com a nascente internet mudaria radicalmente as condições da publicidade dosbare. Com a web cada um ficou livre para ser um publicador sem depender de mediações. A rede tem algo como de vinte milhões de autores, editores de seu próprio conteúdo, que estão livres dos intermediários das mensagens. Cada um pode ser o seu próprio publicador e disponibilizar seu pensamento em diferentes estruturas de informação na web.

O reposicionamento da base operacional de publicação dos textos modificou a economia editorial em todo o mundo. No Brasil o crescente interesse pelos e-books fez com que as suas maiores editoras (Objetiva, Record, a Intrínseca, Rocco e a Sextante) anunciassem uma nova empresa por associação, batizada de Distribuidora de Livros Digitais (DLD). O projeto é uma plataforma de hospedagem e distribuição de livros no formato digital; o anúncio acontece no momento em que toda a cadeia editorial discute a irreversível predominância da chegada do livro em formato digital. [Fonte: Jornal o Globo de 01/06/2010]

A proximidade do leitor com a informação e a nova economia digital tem uma incrível força de indução para a transformação da edição papel em formatação digital. Recentemente o Google publicou pesquisa mostrando que os 10 sites mais visitados da web somam 2 bilhões de acessos em média por mês. Esta quantidade de exposição dos conteúdos não tem parâmetro na comparação com qualquer mídia de impressão e distribuição em papel.

A demanda por textos digitais utiliza diferentes formas através de diferentes canais. O público que consome esta informação também a produz de maneira participativa. Há uma nova cultura de edição e distribuição de textos, do formato da escrita e da direção de leitura que é diferente da cultura que existia no mundo que conhecemos.

Vivemos em uma atualidade e não conseguimos perceber as modificações em curso tamanha é sua potencialidade em modificar nossas vidas. Não existe um distanciamento focal suficiente para que possamos vivenciar as mudanças que estão acontecendo em nossa volta. Estamos em um momento do presente em que cognições passadas ofuscam as modificações profundas da realidade atual.

Como em uma performance “brechtiana”as unidades básicas do atuar: ação/tempo/lugar recitam a sequencialidade da novidade, mas em nossa contracena observamos com distanciado estranhamento a época presente, pois a memória da realidade que vemos se acalma no passado.

“É como se a locomotiva do progresso de repente batesse na parede do presente. Seus vagões, representando vários momentos do passado, colidem e se juntam, passando a conviver…”. *

Notas

Manifesto del Futurismo Carmelo Bene
http://www.youtube.com/watch?v=F_9PxfqLxWc&feature=player_embedded

A reportagem do Guardian de Londres de Maio de 2001 está em:
http://www.guardian.co.uk/uk_news/story/0,3604,496855,00.html

Os mil sites mis visitados na web
http://www.google.com/adplanner/static/top1000/

Carlos Eduardo Berriel,professor do Departamento de Teoria Literária do IEL-Unicamp citado em: O que é ser contemporâneo?, Revista Luz da CPFL Cultura, da Unicamp

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