Saberes passados não constrói o futuro

Tenho visto através da web a abertura de concurso do professor na área de ciência da informação para diferentes IES (Instituições de Ensino superior) e duas questões têm me causado algum estranhamento:

O primeiro é na chamada para atuais concursos haver a exigência de uma graduação em biblioteconomia impeditiva em Edital. Entramos 2010 sem decidir se os campos da Ciência da Informação e da Biblioteconomia tem o mesmo conteúdo os são diferenciados para que se estabeleça esta distinção. O que não está certo é enganar incautos alunos de ciência da informação, de outras áreas do conhecimento, que cursando a ciência da informação esperam ter uma chance igualitária no mercado de trabalho.

Parece que uma lei de reserva de mercado intelectual de 47 anos atrás esta mais forte que nunca. A lei nº 4.084, de 30 de junho de 1962 regula a profissão de bibliotecário e preconiza que o exercício profissional, no quadro profissões liberal, é privativo dos bacharéis em biblioteconomia, de conformidade com a lei em vigor.

Assim, o exercício da profissão de bibliotecário, em qualquer de seus ramos, só será permitido: aos bacharéis em biblioteconomia, portadores de diplomas expedidos por Escolas de Biblioteconomia. Para o provimento e o exercício de cargos técnicos das funções de bibliotecários, documentalistas e técnicos de documentação, na administração pública federal, estadual ou municipal, autárquica, paraestatal, nas empresas de economia mista ou nas concessionárias de serviços públicos, é obrigatória a apresentação de diploma de bacharel em biblioteconomia.

Há que se avisar os atuais estudantes de ciência da informação, que não possuem um diploma de biblioteconomia, desta barreira que enfrentarão no mercado de trabalho futuro.

O segundo fator de meu desentendimento atual com a área é sua total e perturbadora falta de discernimento das mudanças que transformou a área a partir de 1990, a ciência da informação convive agora em uma ambiência de documentos digitais em estoques eletrônicos. Os estoques de documentos impressos em papel serão cada vez mais raros e menores. Todos os indícios internacionais da gestão da informação indicam que este é um fato consumado. Até 2015 a maioria dos documentos que importam para a pesquisa e ensino em todas as áreas será em formato digital.

O fim da era papel para a informação acabou de ser publicamente reconhecido pela “American Society for Information Science and Technology (Asist)”; a sociedade científica da área nos EUA terminou com a publicação impressa de seu mais importante veículo o ARIST ( Annual Review of Information Science e Technology), que há 45 anos era a bíblia da ciência da informação nos EUA. A publicação em papel foi interrompida a pedido dos autores e dos leitores do veiculo. Foram consideradas ainda, na decisão, as questões da grande queda na demanda do produto e a enorme incidência de custos.

Mas aos alunos de ciência da informação continua a ser ensinado um instrumental para gerência e almoxarifagem de documentos em papeis, e uma administração de conteúdos para armazenar e recuperar a informação inscrita, também, em base papel. Estes não serão os documentos de amanhã, quando nossos futuros egressos enfrentarão o desemprego, também, por desatualização de seus saberes.

Só os atuais e futuros clientes deste tipo de instrução inóspita e irreal podem, por pressão, modificar esta ambiência que os exclui de participar do futuro, por condições que explicitamente articulam o seu presente.

Aldo de A Barreto

Um comentário em “Saberes passados não constrói o futuro

  1. Caro Aldo,

    Bibliotecários e cientistas da informação definitivamente são profissionais distintos, ainda que um possa vir a ser o outro através de uma graduação ou titulação. Não é só os concursos para professor na área de biblioteconomia que “demarcam” território, o que busca-se na verdade é uma coerência entre o profissional adequado e a disciplina que está sendo ofertada no concurso. Não faz muito sentido, por exemplo, um profissional com graduação em pscicologia ministrar uma disciplina de catalogação descrtiva.

    Essa é uma discussão que muito interessa a todos os profissionais e pesquisadores da Ciência da Informação, espero ter contribuido para ela e espero que o senhor possa nos proporcionar mais refelxões a respeito desse assunto.

    Att,

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