A questão da Informação

Associada ao conceito de ordem e de redução de incerteza, a informação está identificada com a organização de sistemas de armazenamento e transferência. Aqui estamos limitados à observação e discussão de características e qualidades referentes ao fenômeno da informação entre seres humanos. Indivíduos habitando um determinado espaço social, político e econômico, em que existe uma fonte geradora de informação, um canal de transferência e um destinatário de uma mensagem com condições semânticas.

Nesse sentido, tem-se procurado caracterizar a essência do fenômeno da informação como a adequação de um processo de comunicação que se efetiva entre o emissor e o receptor da mensagem. Assim, as diversas maneiras encontradas para definir a informação tendem a se localizar ou no começo ou e no fim do processo de sua transferência. Quando colocadas no começo estas definições tem o caráter determinista de eventos que se sucedem tecnicamente. Colocadas no final concordam com a existência de uma condição de competência cognitiva do receptor.

A produção da informação, definida por nós como estruturas significantes com intenção de gerar conhecimento, operacionaliza-se através de práticas bem definidas e se apóia em um processo de transformação orientado por uma racionalidade técnica. Os produtores agregam informação para a formar e manipular estoques. Assim, quem detém a propriedade dos estoques de informação determina sua distribuição e condiciona, potencialmente, a produção do conhecimento. Os produtores de informação não podem dizer ao indivíduo o que pensar, mas podem induzir sobre o que pensar.

Considerando, porém, o volume e a estrutura dos estoques de informações disponíveis, a transferência de informação poderia efetuar-se, do ponto de vista do controlador, de acordo com três estratégias: uma estratégia que procura atingir e criar grandes grupos homogêneos de receptores; outra que procure identificar interesse e necessidades comuns em grupos diferenciados; e, finalmente, uma estratégia em que a disseminação da informação privilegie uma elite informacional.

A transferência é elitista, quando é dirigida para um número de receptores com acesso à uma informação que é, restrita aos demais grupos, até porque este grupo de elite possui, além das competências dos grupos anteriores, características políticas e econômicas, que permitem assegurar e manter o acesso privilegiado à determinada informação.

Em uma relação temporal, um núcleo de informação pode ser visto como uma partícula, que vai formar estoque e associa-se ao tempo calendário, dos fatos ocorridos cronologicamente. Aqui a informação acumula-se em estoques com formação contínua, e agrega-se em uma estrutura ou repositório fixo.

O volume e o crescimento destes estoques são diretamente proporcionais ao tempo linear. Contudo, estes estoques formam ondas de informação para atingir o homem e cumprir a sua missão de transformar partículas de informação em ondas de conhecimento. O tempo em que se opera a reflexão consciente para a assimilação de informação não é, contudo, o tempo linear dos estoques de informação. O homem que reflete para assimilar a informação, está colocado entre o passado e o futuro, em um ponto imaginário do presente que se repete, quotidianamente como uma linha que une passado e futuro.

No setor de informação, a oferta e a demanda não se equilibram da mesma forma que nos mercados tradicionais. No âmbito das trocas de informação é a oferta que cria a demanda por informação. No contexto de um possível mercado, os produtos de informação são responsáveis pela oferta global de informação que, depois, definirá a demanda em seus diferentes níveis. A demanda de informação é fragmentada e fragilizada social e economicamente em micronúcleos diferenciados até em sua competência para decodificar a escrita em uma base da informação.

O produtor de informação decide sobre a oferta dos itens de informação estocados e quais as estratégias para sua distribuição à sociedade. Decide, ainda, sobre o “empacotamento” tecnológico para esta distribuição. Alguns destes pacotes, ou canais de distribuição, são tão intensivos em tecnologia emergente que se confundem com o próprio conteúdo da narrativa, quando o canal é mais valorizado que o documento.

O produtor de informação tem condições de manipular a disponibilidade e o acesso à informação. Contudo, não pode determinar o seu uso e, principalmente, a assimilação que produz o conhecimento. No mundo da produção e distribuição da informação, a oferta pode criar demanda, mas não pode transformar esta demanda em ação dinâmica e diferenciadora, que através da assimilação gera conhecimento e promove o desenvolvimento, destino final da informação como fenômeno cognoscível.

Assim grande parte dos estoques estáticos de informação transforma-se em discursos de informação, apenas uma manifestação de interesse formalmente elaborada. O discurso da informação, independentemente da sua vestimenta tecnológica e de seu poder de convencimento é só uma promessa de verdade. O discurso somente particulariza uma informação estocada não a coloca no fluxo. Esta só possui o poder de ação quando adquire a condição de mensagem, com intenção específica e assimilação possível.

Como ação, a informação transforma-se em atitude com vigor e dinâmica para se realizar na realidade ao modificá-la de acordo com a sua intenção. Discursos de informação não traduzidos e não assimilados formam os excedentes nos estoques em poder dos produtores, excedentes estes que não criam riqueza em forma de conhecimento e acarretam apenas um elevado custo social pela manutenção de excedentes nunca utilizados.
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Obs.: Resumo do artigo: “A Questão da Informação” publicado na Revista São Paulo em Perspectiva volume 8 numero 4 de 1994, há quinze anos. Disponível, ainda, em
http://aldoibct.bighost.com.br/quest/quest2.pdf

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